Da pose à piada pronta

Acompanhei por alto as discussões sobre Oswald de Andrade inspiradas pela FLIP. E fico impressionado, mas talvez só porque, desde o fim da faculdade, vivo cá no meu assento etéreo, lendo apenas o que me apetece.

Primeiro, parece que toda a discussão literária no Brasil é uma discussão de pose. Ou, se você preferir, de postura, de atitude. O escritor deve ser assim, deve ser assado. Porque é preciso fazer uma literatura assim, ou assado. Uma literatura que seja nacional, original, espontânea, atenta às influências mas sem perder autonomia, criativa, mágica, insubmissa, inteligente mas sem pedantismos e, é claro, transgressora. Não sei como ninguém percebe que o Ministério da Educação é a síntese suprema da ideia mesma de establishment, e que todos os professores do Brasil elogiam a transgressão. Eu nunca vi um professor elogiar um autor porque ele respeitou o cânone de sua época como ninguém e agradou a todos. Não perceber que a consequência lógica de o establishment elogiar ininterruptamente a transgressão é fazer da ideia de transgressão o centro do conservadorismo é só o começo do problema de uma zelite acadêmica que só conhece as palavras e nunca viu as coisas. Não é à toa que hoje mesmo no suplemento literário do Diário do Balneário as pessoas estão lá discutindo o que é transgressão. Se todo mundo quer transgredir, não há transgressão, ué. E se está todo mundo tentando transgredir, nem dá para ser conservador direito também. Você tem de simplesmente se afastar e buscar suas referências naquele lugar da universidade que só é frequentado pelos concurseiros que nem sequer estão matriculados ali: a biblioteca. Eu acredito, por exemplo, que a melhor poesia feita hoje no Brasil, poesia excelente mesmo, passa totalmente ao largo da discussão literária acadêmica ou jornalística.

Primeiro de novo, é esse o legado de Oswald de Andrade e do Modernismo de 1922. Os melhores poemas modernistas não estão ligados à Semana de Arte Moderna. Aliás, nem os poemas mais conhecidos estão ligados à Semana. A Semana de Arte Moderna Contada nas Escolas é uma narrativa para agradar adolescentes, uma espécie de Cinderela das letras:

Era uma vez uma sociedade conservadora e empolada. Então apareceu um grupo de amigos do barulho, cheio de ideias novas e transgressoras: os modernistas. Os burguesinhos torceram o nariz. Mas foram vencidos pela esterilidade de suas próprias ideias e inevitavelmente deram lugar à novidade e ao vigor da juventude.

E neste momento o aluno adolescente liga as pontas sem perceber: a professora está contando essa história porque eles venceram mesmo, e o bom é ser jovem e transgressor e buscar a novidade.

Primeiro de novo de novo, é uma zelite acadêmica que olha tudo como pose, mas que não considera a própria pose; que acusa os outros de não estar cientes do seu lugar no mundo, sem jamais se considerar culpada dessa acusação. Na minha experiência, porém, o mais comum é sermos nós mesmos culpados daquilo de que mais acusamos os outros. E isso também vale para os nossos conservadores de internet: gente que sequer leu Machado de Assis e cujo monolinguismo funcional melhor seria chamado de meiolinguismo cultural não consegue dormir por causa da decadência das coisas. Você não “combate a ignorância” reclamando na internet. Isso você faz calando a boca e lendo um livro. E fazendo um esforcinho para entender alguma coisa.

O mais irônico é que dois poetas que certamente estão entre os cinco (ou três, ou até dois…) maiores da língua, Camões e Fernando Pessoa, não tentaram ser transgressores. Os dois fizeram o que podiam para atender ao gosto da época e não conseguiram entrar na turma das pessoas chiques. Até poemas elogiando o governo eles escreveram. Isso deve servir para mostrar que buscar a transgressão não garante nadinha, e que para fazer parte do grupo das pessoas chiques é mais importante já ter nascido dentro dele, ou aprender a imitar seus trejeitos, do que se esforçar para escrever boa literatura. Quer dizer, a mera ignorância desse detalhe, que ajudaria a aguçar a autoconsciência, mostra o quanto a ideia da Semana de 1922 impregna a produção crítica e literária.

Ou, resumindo tudo, a Semana de 1922 devia ser entendida como uma espécie de peste mental, que vai transformando os contaminados em piadas prontas involuntárias.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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