O grande império da bullshitagem

Estamos em Recife. A mãe do surfista lhe diz: “Meu filho, cuidado na hora de surfar, que aqui tem tubarão.” O surfista sente que tem o direito de surfar sem ser incomodado. E é atacado por um tubarão. Será que a mãe é culpada de participar de uma cultura de culpa da vítima? Ou será que ela simplesmente está exercitando um pouco de prudência, isso é, admitindo que o mal existe e que há ocasiões em que estamos mais suscetíveis a ele? Mas Pedro, você está abusando da analogia. Se uma mulher é estuprada, ela é estuprada por um ser humano, que pode ser educado, que tem livre arbítrio. Tudo bem, então você fica aí contando com o pequeno Rousseau rosado e bondoso que existe na alma de cada ser humano, que eu, quando tiver filhas, aviso para elas que só os bobos reclamam para si o sacro direito de dar bobeira. O que, é claro, não significa que eu esteja dizendo que os culpados de males não devam ser processados segundo a lei, nem que estejam justificados. Enquanto você fica aí protestando contra a ilegitimidade do mal, ele cai na sua cabeça de qualquer jeito.

Estou aqui escrevendo isso, aliás com uma certa vergonha, porque o negócio é deveras básico, porque leio hoje no jornal que haverá uma Marcha das Vadias ou Freakwalk carioca, em que mulheres virão praticamente até a porta da minha casa dizer que são lindas, gostosas, desejáveis e sublimes, que podem “exercer sua sexualidade” como quiserem, e que ainda têm o sacro direito de determinar a opinião que outras pessoas têm a respeito. Mas é mesmo o mundo do rentismo de imagem.

O que me interessa mesmo é o aspecto paradoxal desse desejo e a trajetória que esse tipo de movimento vem tomando nas últimas décadas, sempre se dirigindo para algo mais sutil, mais além. Não conheço uma única pessoa, e olha que eu conheço uns conservadores bem louquinhos, que não acredite em igualdade jurídica, por exemplo. Mas não é isso que os indignados do mundo querem. As mulheres certamente já perceberam que poder votar, poder trabalhar, poder fazer tudo que os homens fazem não lhes garantiu de jeito nenhum a famosa felicidade. Um belo dia os gays vão acordar e perceber que, mesmo que o casamento civil tenha resolvido alguns de seus problemas práticos reais, os problemas interiores continuam lá, talvez piores, porque foi feita uma aposta numa conquista e o que veio foi a ressaca cósmica. Na verdade, se todos os politicamente corretos do mundo tivessem a oportunidade de matar o Papa com um taco de beisebol, e babar catarticamente sobre a ruína do conservadorismo aniquilado, sua alegria duraria 10 minutos, e no dia seguinte eles começariam a se matar uns aos outros. Porque ainda haveria resquícios da cultura conservadora. Porque a opressão foi introjetada. Porque os esquemas culturais persistem. Porque existe alguma coisa sutil que os fere, e que é manifestada pelo outro, o outro que for o alvo mais fácil. Isso até a extinção mútua. Física, aliás.

Semana passada mesmo a Parada Gay em São Paulo mostrou definitivamente fazer parte do grande império da bullshitagem. Usam imagens de santos católicos, claramente violando a lei de ultraje a culto (essa lei é contrária à liberdade de expressão, e eu sou contrário a ela, mas é a lei, ué), e pedindo a criminalização de discursos contra o homossexualismo. Estou ainda tentando entender como isso poderia não ser interpretado como uma criança que quer ganhar o direito de bater na outra sem que a outra possa sequer sonhar em revidar. Every bully believes he was bullied first, e antigamente não faziam filmes para dizer que a criança que batia nas outras na escola tinha problemas em casa etc?

Não, é claro, que a Marcha para Jesus não possa sofrer uma crítica semelhante. Para cada conservador empenhado em denunciar o grande perigo homossexual, drogado e retumbante que se estende sobre o Brasil, há um militante politicamente correto para denunciar a podridão direitista que impede as árvores de dar fruto e o céu de ser azul. Não perceber a gemelaridade desses movimentos, unidos pelo desejo de forçar o prestígio para a própria identidade, bradando orgulho do alto dos telhados, é coisa de quem hoje em dia no Brasil diz-se escritor e jamais considerou que isso teria algo a ver com capacidade de observação. “Marcha para Jesus”: eu sou católico e jamais me ocorreu que eu devesse ter “orgulho” disso, como se não fosse completamente pirado eu reclamar para mim os méritos dos santos ou dos construtores de catedrais. A religião não é meu time, o embate (debate não, porque, bem) público não é a Copa do Mundo: é o mundo, ao qual prefiro renunciar, porque é uma perda de tempo. Converter-se não é aderir ao time “certo”. Você pode aderir à causa que considera a mais justa, e quem não faz isso?, e esfregá-la na cara dos outros, e continuar sendo o mesmo idiota de sempre, o que aliás era aparentemente óbvio até coisa de 20 ou 30 anos atrás.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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