Registros

Sempre que vou ao teatro, ouço o presente do indicativo usado para referir uma ação que acontece naquele momento. Isso é bizarro porque na fala, na famosa vida real, nós usamos o gerúndio para isso. Por exemplo, ninguém diz “eu como”, mas “eu estou comendo”. O presente “eu como” refere uma ação habitual. “Você come chocolate?” significa “Você tem o hábito de comer chocolate?”.

De início eu pensava que isso era um dubladismo, isso é, um vício adquirido pelos tradutores a partir do consumo de filmes dublados, e todos nós, na infância e na adolescência, consumimos filmes dublados. Depois, quando crescemos e viramos tradutores, passamos a consumir o inglês diretamente e a deixar o português como língua que só se usa para trabalhar e para comprar pão. Mas observo que mesmo textos escritos em português estão cheios de presentes do indicativo com o valor que mencionei acima. Por quê? É coisa típica do registro literário escrito, mas é também do diálogo dramático? Por que as pessoas têm a exigência nominal de diálogos realistas, mas aceitam essa peculiaridade? É por que elas têm mau ouvido?

Estou traduzindo uma peça de teatro, com diálogos que não tem pretensões barrocas, e não consigo escrever assim. Preciso usar o registro real, que escuto todos os dias. Mas já começo a me questionar.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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