Freakwalk

Você não pode controlar o modo como é percebido. As empresas gastam milhões em firmas de relações públicas que prometem justamente isso, e mesmo assim fracassam. Dizer que a Coca-Cola é a “água negra do capitalismo” deve ser tão velho quanto a própria empresa. Para uns, isso basta para recusar o produto. Para outros, como eu, é um prazer adicional. Consumimos identidade, não é?

Mas bem. Você pode até impedir certas reações àquilo que projeta. Digo que é fundamental impedir reações de violência física. Nem uma pessoa que andasse com uma camiseta dizendo “estupre-me” deveria ser estuprada, ainda que, acho eu, não seja recomendável andar com essa camiseta em certos lugares e em certas horas. Já a questão da violência verbal ou simbólica, tão querida dos politicamente corretos, é outra, porque, bem, francamente, com essa conversa de violência verbal ou simbólica, por que não proibir você? Tenho certeza de que você ofende alguém, e não sei por que essa pessoa teria menos direitos.

Para ser sincero, e pessoal, houve um tempo em que eu poderia ficar indignado, depois houve um tempo em que eu achava engraçado, mas hoje só acho misterioso. Como é possível insistir tanto num desejo autossabotador? Como é possível que alguém não perceba que não pode controlar o modo como é percebido?

A Slutwalk veio da expressão to dress like a slut. Considerando o estado atual das gírias, o ideal seria traduzi-la como “vestir-se que nem uma periguete”, e não “como uma vadia”. E haverá algum dia, um único dia, em que seja possível não escutar uma mulher dizendo que outra está vestida que nem uma periguete?

Os politicamente corretos (eu ia dizer “intelectuais”, mas nem sei mais o que essa palavra significa) que vêm das faculdades de Humanas defender as Slutwalks da vida também adoram dizer coisas como “a obra está além do seu autor”, e adoram justificar interpretações “transgressoras”. Esses clichês têm um fundo de verdade. Dado certo contexto, as coisas podem ser interpretadas de outro modo. Agora é só a minissaia que é sagrada, que não pode ser interpretada, que vai virar dogma? Está abolido o contexto?

Claro que os participantes da Slutwalk podem abolir o contexto, lá na cabeça deles. Podem abolir a opinião alheia, lá na cabeça deles. Mas eu quero dizer que eu também exijo o controle da minha identidade. Anote aí: beleza apolínea, inteligência de Aristóteles, e menos do que isso é opressão. Não é porque eu sou macho adulto branco católico heterossexual que vou perder o sagrado direito de determinar como as pessoas têm de me perceber.

Se slut não pode, então vamos a um adjetivo mais adequado: freak.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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