Monarcas & velhinhas

Ontem vi um filme, Minhas tardes com Margueritte, que traz uma velhinha absolutamente feminina e encantadora, e isso me fez lembrar de algo que aparentemente não tem nada a ver: os filmes sobre a monarquia (normalmente a britânica). Os filmes sobre a monarquia são sempre estruturados sobre a mesma questão: os monarcas são pessoas normais como eu, como você, mas enfrentam a terrível tarefa de servir de modelo para os outros. E eu venho pensando em como esse dilema é tipicamente… burguês. Certamente não sou um apologista do bem intrínseco de nenhuma classe social, mas não posso deixar de observar que há uma diferença entre admitir que isso é ou deveria ser natural, e recusar essa premissa.

Explico. Sua recusa ou aceitação, para começar, sempre se dá no plano do discurso, e só. Todos querem servir de modelo, no sentido de que todos preferem ser imitados a admitir que imitam, exceto no caso de modelos externos, alheios à experiência imediata. Eu, que escrevo peças, prefiro admitir que imito Shakespeare a dizer que imito o Fulano ao lado; a mulher que quer ser elegante prefere dizer que se inspira em Audrey Hepburn ou em Grace Kelly a admitir que, na verdade, está competindo com suas amigas. Por isso, o que está em jogo é a simples admissão de que os outros existem, e de que devemos respeitá-los, e oferecer-lhes algo de bom, em vez de presumir que os outros, se é que existem mesmo, é que devem admirar-nos simplesmente porque sim, e que se danem se não gostarem. É deveras burguês, no mau sentido (e com isso quero dizer que por outro lado há virtudes burguesas, claro), presumir que zelar pela boa opinião alheia é um fardo, e não algo natural. Aliás, é francamente infernal julgar que a perpétua consideração com os outros, no sentido de querer sempre oferecer algo de bom, é um ônus tão pesado que só pode ser justificado pelos luxos da monarquia. “Elizabeth é rainha; é rica, mas tem de se comportar o tempo todo; melhor ser como nós, que vivemos lambuzados.”

Volto à velhinha. O que ficou claro foi exatamente uma das diferenças entre o inferno e o céu. A personagem exibia a naturalidade da gentileza, a ausência de presunção de que se é merecedor de algo, de que o mundo nos deve algo porque sim. Quem presume isso nunca sentirá gratidão por nada. Mas a velhinha era delicada a todo instante, a ponto de inspirar o personagem que contracenava com ela a agir da mesma maneira. O céu começava ali mesmo, na companhia dela.

Quem lê isso não deve presumir de jeito nenhum que, só porque eu faço essas reflexões, vivo dessa maneira. Quisera eu. Mas não posso deixar de observar que é assim que eu gostaria de viver.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com