A verdade & a verdade de Osama bin Laden

A velocidade com que se alteram as versões a respeito da morte de Osama bin Laden convida a não dizer nada a respeito e a esperar que algo se cristalize. Mas, como não é diretamente disso que quero falar, não preciso esperar tanto.

Semana passada, Obama finalmente mostrou a certidão de nascimento. Por que demorou tanto? Por acaso o eleitor americano tinha alguma obrigação de acreditar nele? É a esse ponto que chegamos no sistema de dois pesos e duas medidas que rege a relação entre a burocracia e aqueles que a sustentam? A recusa em mostrar a certidão de nascimento foi uma grande tentativa de legitimar o “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, e de desclassificar quem queria ver a certidão.

Aí vem a questão da teoria da conspiração. A teimosia infantil em mostrar a certidão explica o verdadeiro sentido do uso de pejorativo de “teoria da conspiração”: “se você não acreditar na minha palavra pura e simples, é um paranóico que acredita em teoria da conspiração”. Poderíamos esperar que o mais alto mandarim fosse um modelo de transparência. Mas ele é. É claro que ele é. Não está vendo? Você não está vendo porque é paranóico e acredita em teoria da conspiração.

O mesmo acontece na questão da morte de Osama bin Laden. Como alguém poderia esperar anunciar ter matado o homem mais procurado do mundo, não mostrar o corpo, nem uma foto, e querer credibilidade total? Só mesmo… tendo escondido a sua certidão de nascimento antes. Tudo bem, eu entendo que essa pessoa aja assim. Pelo menos ela é coerente.

E o que eu mesmo acho da questão em si? Bem, eu acho que diversas questões estão fora demais do meu alcance para que eu possa ter alguma opinião que vá além da credibilidade que eu estou disposto a atribuir à fonte das informações. Por isso, eu mesmo não acho nada, nem durmo mal por isso. Limito-me a observar que uns dizem isso, outros dizem aquilo, e que há coerências e incoerências entre esses discursos.

Perceba o leitor que estou distinguindo entre dois tipos de verdade, uma que pode ser verificada pela consciência humana individual (e que pode ou não corresponder a um discurso), e um discurso que passa por verdade, isso é, que tem prestígio suficiente para não ser julgado; aliás, que tem prestígio suficiente para julgar os outros discursos. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Quando se fala que a verdade acabou, tudo é relativo etc., essas afirmações se referem a essas estruturas de prestígio, que realmente acabaram. Nada, nem ninguém, possui mais o prestígio social de emissor bondoso da verdade. Você sente que sua crença é uma escolha e por isso não é algo que foi confortavelmente predeterminado, com a gostosa exclusão a priori das demais opções.

Por isso também é que muitos de nós sentimos que não passamos de uns fingidos: duvidamos em segredo, mas em público repetimos o que se espera. Porque, afinal, não acreditamos em teoria da conspiração, e temos muitas contas a pagar.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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