“Orgulho” por contágio

Leio no G1 a notícia do menino que foi suspenso por cinco dias na escola por usar um terço e penso imediatamente em Antígona. Ele fazia o que achava certo, a escola também. O apego de cada um àquilo que considera certo só vai reforçar o apego do outro. E, caro leitor, considere o seguinte: se “aquilo” é certo ou não é irrelevante para o impasse trágico. Do nosso ponto de vista confortável e tranquilo, podemos nos dar ao luxo de querer arbitrar a questão e ainda ter a ingenuidade de achar que nosso laudo arbitral deveria ser enfiado goela abaixo das partes envolvidas, que sequer nos convocaram. Não sejamos nós também contagiados pela disputa.

É por isso que não vou falar, como Antígona, em “leis não-escritas”, nem no sacro direito de usar um terço, até porque eu acredito que 1. se a escola é pública, deveria haver a liberdade de usar um terço ou uma camiseta de Aleister Crowley; 2. se a escola é privada, deveria haver o direito de usar só o que a escola considerar aceitável e quem não gostar que procure outra escola; 3. qualquer violência física fica terminantemente proibida e deve ser reprimida em qualquer caso.

Todas as pessoas que são reprimidas por suas crenças, quaisquer que sejam, tendem a imitar o repressor, transformando sua crença numa identidade estrondosa, numa camiseta berrante, numa caricatura. Poderíamos pensar num grupo terrorista que defendesse as leis não-escritas de Antígona, sem que isso fizesse de Creonte, ou do aparelho estatal como um todo, o mocinho da história. Não há mocinhos, não há bandidos, só existe a epidemia de violência, que pode ser melhor ou pior administrada, sobretudo para evitar o backlash, que é aquilo que os comunistas chamam de “revolução”: a recusa de todos os paliativos.

Eu recomendaria que o menino que quer usar o terço não se sinta “orgulhoso” dele, como diz. Eu mesmo não entendo o orgulho identitário, nem creio que ele seja orgulho de fato; acho que é só uma posição marcada num cabo de guerra. Gostaria que o menino se esforçasse para não ficar com raiva, para não sentir que sua violência contra a escola é legitimada, e que se esforçasse para ser melhor e para mostrar que o cristianismo não é seu direito de expor um símbolo, mas algo efetivamente vivido. É verdade que é duro resistir a isso; é verdade que todos os reprimidos (ou que se julgam reprimidos, dá na mesma) estão querendo afirmar-se violentamente, e que a narrativa de “eu era oprimido, agora vou fazer o que eu quiser, quem não gostar que se dane” é o mito fundador do século XXI. Mas, enfim, estar no mundo sem ser do mundo etc.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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