A opinião de Shakespeare sobre o filme da Bruna Surfistinha

Pois é, ontem vi o filme da Bruna Surfistinha. Valor cinematográfico? Os cineastas brasileiros estão conseguindo adaptar o blockbuster americano ao Brasil, o que pode, ainda que com certo atraso, ajudar a viabilizar a famosa indústria nacional. Valor antropológico? Muy grande, sobretudo porque tudo aquilo que se poderia falar contra o blockbuster se aplica a esse filme. Vamos lá.

O filme da Bruna Surfistinha me lembrou da minissérie Alice, da HBO. Vi uns capítulos e parei, porque simplesmente não conseguia me interessar. Mas as duas obras podem ser resumidas assim: servem de duplo angélico da mulher que se considera “moderna” e que me faz pensar em Herbert Marcuse. O negócio é mostrar mulheres que estão além de supostos moralismos e que continuam sendo maravilhosas, mesmo que façam coisas que não tolerariam que fizessem com elas nem por um mísero segundo.

Em Alice, a protagonista epônima (essa palavra sempre dá a impressão de estar falando de boca cheia) sai de Palmas, onde deixou um noivo que espera a sua volta rápida, chega a São Paulo para cuidar do inventário do pai e, se não me engano, em 24 horas já está na cama com um desconhecido. Creio que logo depois ela também conhece biblicamente outro homem. Fica grávida. Seu namorado, desesperado com a namorada que não volta, nem atende ao telefone, vai de Palmas a São Paulo. Descobrindo a gravidez, protagoniza a mais abjeta cena (pelo conteúdo, não pelo valor artístico, digamos) da TV brasileira, oferecendo-se para cuidar do filho como se fosse dele.

Agora, antecipando-me à leitora, será que estou observando isso porque sou um torpe moralista preconceituoso patriarcal falocêntrico? Não, não. Eu me interesso muito (foi a razão de ter começado um blog) por aquilo que em inglês chamam de double standard, o uso de dois pesos e duas medidas. Eu só queria que a leitora examinasse a mesma narrativa trocando o sexo dos personagens. Homem larga a namorada em cidade do interior, dorme com outra em São Paulo logo no primeiro dia, com mais outra logo depois, engravida uma, decide ignorar a mulher que largou nos cafundós, e ainda a dispensa quando ela aparece para dizer que está disposta a perdoar tudo. Preciso falar mais?

O filme da Bruna Surfistinha tem a mesma característica. Ou os homens são toscos porque são grosseiros, rudes, violentos, orgulhosos, ou eles são toscos porque são iguais ao namorado da Alice, sofrendo de bananice tremens.

Entendo que existe um mercado e que é isso que as mulheres querem ver. Que as pessoas buscam obras de arte e discursos para se sentirem legitimadas e confirmadas; afinal, você não lê todo dia o jornal que detesta, não é mesmo? Nem eu. Mas não creio que deva deixar de observar que todas essas obras perpetuam mentiras existenciais. As pessoas não aprendem com a experiência, elas aprendem com as narrativas que lhes são apresentadas. A mulher pode ver no cinema uma protagonista (e devo acrescentar que estou falando do filme, que meu conhecimento da Bruna Surfistinha real tende a zero) que apresenta sua carreira na prostituição como uma jornada de autoconhecimento, mas ela deve estar ciente de que os homens com quem ela gostaria de ficar podem até partilhar dessa visão generosa, ainda que não a ponto de querer casar com ela. Só que é isso que vejo cada vez mais, sobretudo em narrativas escritas por mulheres: a história de uma autolegitimação ilimitada e inverossímil. Junk food para a alma, que também precisa fazer sua academia.

Lembrando os conselhos amorosos da Rosalind disfarçada de Ganymede em As You Like It, as pessoas podem acabar achando que valem muito mais do que valem e perder a oportunidade de fazer um bom negócio. E creia: enquanto narrador, Shakespeare tem mais a ensinar do que os roteiristas de blockbusters. A própria peça tem esse título, Do jeito que vocês gostam, para gozar das inclinações do público, que deveria aprender com as lições dadas por Rosalind ao pastorzinho Sylvius, que está servindo de namorado da Alice à pastora Phoebe:

You are a thousand times a properer man
Than she a woman: ‘tis such fools as you
That makes the world full of ill-favour’d children:
‘Tis not her glass, but you, that flatters her;
And out of you she sees herself more proper
Than any of her lineaments can show her.
But, mistress, know yourself: down on your knees,
And thank heaven, fasting, for a good man’s love:
For I must tell you friendly in your ear,
Sell when you can: you are not for all markets:
Cry the man mercy; love him; take his offer:
Foul is most foul, being foul to be a scoffer.
So take her to thee, shepherd: fare you well.

A cena toda, imperdível e sem qualquer espécie de legenda, está no final do Ato III, começando após os três minutos deste vídeo, que é tirado da maravilhosa versão de Kenneth Brannagh:

Autor: Pedro Sette-Câmara

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