Duas vozes de Odorico Paraguaçu

Suponha que você vá ler o texto “Um estadista sensitivo”, de Ítalo Moriconi, sobre Joaquim Nabuco. Logo na primeira página você vai encontrar uma citação de Tristão de Athayde, o velho Dr. Alceu, o Frei Betto de sua época, ou o Leonardo Boff, ou um misto dos dois. Dr. Alceu descreve seu encontro com Joaquim Nabuco:

O cenário do encontro não podia ser mais propício ao esplendor da revelação da mais bela flor masculina da nossa gente, já cercada de uma auréola de que o adolescente ouvira muito falar. (…) O cenário foi a praia de Botafogo, recentemente modernizada mas ainda totalmente deserta. Crepúsculo ainda claro. Ninguém na calçada do mar. Morando então ali por perto, na Rua Senador Vergueiro, costumava eu à tarde, vez por outra, ir passear o lirismo da adolescência já inquieta por aquelas avenidas novas, sem vivalma. (…) vejo ao longe dois vultos que se aproximavam (…) logo reconheci Eliah Root, o famoso delegado norte-americano e o nosso Nabuco. Fiquei siderado. O busto alevantado (…) um rosto aberto, iluminado por dentro de uma luz interior que completava a luminosidade do crepúsculo nos cabelos, olhos serenos e olímpicos, o chapéu, indispensável na época, mas na mão, o que já representava uma audácia (…) Em tudo uma grandeza, uma serenidade, uma harmonia, uma paz e tanta simplicidade humana que até hoje, quando me sinto perturbado e duvidoso de nossa gente, volto depressa àquela imagem imorredoura em minha memória, e retomo o caminho da confiança em nosso futuro. Nabuco continua a ser, para mim, o grande reconciliador nas horas de dúvida e desalento. Um país que produziu um exemplar humano como aquele, na mais bela harmonia de corpo e espírito, não pode deixar de ir para a frente e para o alto!

E após o estilo, digamos, afetado, oco, esparramado, que nos faz imaginar um grande sermão dado pela Hebe Camargo.

O autor do ensaio, Ítalo Moriconi, também fala sobre Nabuco:

A metáfora da moléstia de Nabuco é portanto índice de uma pedagogia centrada num paradigma que teoriza e pratica a formação como implantação no Brasil de valores civilizatórios europeus e norte-americanos selecionados em função de sua universalidade.

E agora vemos que a Hebe Camargo tem um diploma, e fala para as suas espectadoras no meio da sala de aula.

Como modelo da Hebe, e do Dr. Alceu, e de Ítalo Moriconi, ao som do mar e à luz do céu profundo, fulgura o grande, o eterno Odorico Paraguaçu.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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