Minha enésima vituperação contra o modo como o Ministério da Educação vilipendia a língua portuguesa


Você está vendo esse livro? Ele não teve revisor. Não consta nos créditos. E isso é deveras perceptível. Um livro excelente, soterrado pelo péssimo uso do português.

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A impressão que tenho, francamente, é que algo entre 99% e 99,9% dos livros brasileiros de direito e economia — escritos originalmente em português ou traduzidos — foram escritos por pessoas cuja cultura começa e termina no Sony Entertainment Television e cujo uso do português se resume aos rápidos contatos com garçons. O português não é língua de cultura da elite cultural do Brasil, e isso é deveras evidente. O português é só uma língua que se fala por um acidente comezinho do dia-a-dia.

Digo-vos, senhores, quem é o culpado; o culpado mesmo, não um mero bode expiatório. O culpado é o Ministério da Educação. Primeiro inventa-se que a criançada tem de saber distinguir entre um completivo nominal e um adjunto adnominal; que é preciso saber classificar uma oração subordinada reduzida de gerúndio (e se vocês soubessem que cousa simples está ocultada por esse termo técnico pomposo…); faz-se provas pedindo mil e uma classificações. O problema, é claro, é que a inteligência não opera sobre o vazio. Quando eu, já burro e velho, efetivamente aprendi essas coisas, foi junto com o grego (se você chegou agora, formei-me em grego antigo na UFRJ — na tenra idade de 33 anos) e junto com mil teorias de sintaxe, algumas realmente fascinantes. E eu já tinha traduções publicadas, já tinha lido todos os romances de Machado, a obra de Camões e muito muito muito mais. Repleta de exemplos, minha inteligência captou algo.

Mas aquele “primeiro” do parágrafo anterior pede um “segundo”, e lá vai: uma discussão como a do “preconceito linguístico” peca muito mais por sua extemporaneidade do que por sua estupidez intrínseca. Estupidez intrínseca porque, bem, todo mundo discrimina todo mundo segundo algum critério. Não gosto de quem não se preocupa em falar bem, ou pelo menos claramente. Se você acha que a cortesia de se fazer entender pelos outros é opressão burguesa, obrigado, nossa conversa acabou. E se você não vê o mais mínimo bem em poder falar com Camões, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Gonçalves Dias etc., não tínhamos assunto mesmo. Passando à extemporaneidade, lá vai: essa discussão só agrava o erro inicial, que é presumir que existe alguma necessidade fundamental em dominar regras de gramática de maneira explícita e autoconsciente. Eu penso na teoria que diz que a preposição é o núcleo do sintagma preposicional toda vez que faço o paralelismo da preposição, mas discriminar um economista por não saber do que estou falando seria tão injusto quanto ele me discriminar por eu não saber o que é Curva de Philips (mas eu sei). Em suma, enfatizar tanto a gramática é tão imbecil quanto ficar reclamando dela. O efeito das duas atitudes é o mesmo: as pessoas falam e escrevem como se nunca tivessem conhecido a língua portuguesa.

Solução? Não sou a favor de grandes métodos obrigatórios, mas é difícil não observar que aumentar as aulas de literatura e de redação e diminuir — sim, isso mesmo, diminuir o número de aulas de gramática é fundamental. Nem que seja para acabar com esse negócio de qualquer palhaço vagamente letrado ficar corrigindo a ortografia alheia e se achando o Alexandre Herculano do Baixo Grajaú. Sem contato com a língua, os economistas continuarão escrevendo como economistas, e os advogados como advogados, e estou dizendo isso porque não consegui pensar num insulto pior. Se você é a exceção, então deve ser inteligente o bastante para saber que esse texto não se dirige a você. Ou se dirige também: se você gosta do português, contribua para acabar com o monopólio do Ministério da Educação, que só dá a seus súditos uma mistura sórdida de papinha literária de letrinhas de música e regras gramaticais que ajudam tanto a falar e a escrever bem quanto uma aula de Física ajuda a andar de bicicleta. Quer dizer, se você já for muito bom, essa aula pode até te deixar melhorzinho. Mas é só.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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