Teatro é (deveria ser) a maior diversão

Toda vez que leio resenhas teatrais, ou meras sinopses, escritas por jornalistas ou mesmo pelas próprias companhias de teatro, sempre me deparo com as mesmas palavras: “pesquisa”, “investigação”, “questionamento”. E isso faz com que eu me lembre do famoso ensaio de Robert Nozick em que ele se pergunta por que existem tantos intelectuais de esquerda, e sugere, como resposta, que isso acontece porque esses intelectuais querem reproduzir na sociedade inteira o ambiente de uma sala de aula, porque era nesse ambiente que os pequenos intelectuais eram mais valorizados.

O que uma coisa tem a ver com outra? É óbvio: o teatro é encarado como se fosse uma extensão da sala de aula, do ambiente acadêmico. Por que não fazem isso com o cinema, eu não sei. Quer dizer, até fazem: mas só se o filme ou diretor já tiver sido ungido com os santos óleos do cabecismo.

Também é óbvio que existe um outro teatro que nunca é chamado de investigação, nem de pesquisa. Um teatro para as massas, ou para a classe média que pode pagar os ingressos, a mesma classe que é vista com desprezo por aqueles que falam em teatro investigativo e pesquisador.

Fato é que as peças são encenadas à noite. E que só quem quer sair de casa para uma investigação ou uma pesquisa são as pessoas que ficaram em casa vendo TV o dia inteiro, ou melhor, os aspirantes a atores que aguardam o próximo teste de Malhação. Simplesmente mudar a cultura de olhar as coisas por esse ângulo talvez já tivesse um efeito imediato na bilheteria. Eu trabalho em casa boa parte do dia. Será que, depois de ficar traduzindo textos muitas vezes deveras abstratos, eu quero assistir a uma “investigação do universo feminino”? Isso não vai harmonizar com a pizza ou com o sushi de depois.

O fetiche acadêmico gerou até um subgênero (carioca, ao menos), cujas regras adotei conscientemente na peça que escrevi e que será montada em Belém em 2011. Aliás, eu adotei essas regras para aumentar as chances de ser encenado: por exemplo, a peça tem de ter pelo menos flashbacks, ou algo que perturbe um pouco a seqüência começo-meio-fim; tem de ter um personagem cuja identidade é confusa, ou ignorada, sendo compreendida só depois; o ponto de vista principal tem de ser alterado ao longo do texto. Essas regras garantem que você não está escrevendo algo que seria considerado tolo ou “comercial”. Seguindo-as, sei que meu texto será registrado como uma produção intelectual de respeito. Devo dizer, porém, que esse subgênero em si não é ruim (eu não escreveria uma peça se achasse que sairia ruim), mas sua origem é clara: algo na peça tem de parecer que “faz pensar”. O que importa, de fato, é como o público vai registrar o que você fez.

Pelo menos um dos leitores deste texto certamente pensa que o ideal seria juntar as duas coisas: diversão, porque ninguém é de ferro, e alguma “inteligência”, porque o mínimo que você espera após amargar aqueles anos na faculdade é ter o direito de desprezar as massas e de corrigir a ortografia dos outros. Mas isso me parece deveras forçado. Gosto de pensar num teatro que, como boa parte do cinema, como boa parte das melhores séries de TV, são meros prolongamentos das referências que cada um tem, e não são feitos com espírito acadêmico. É claro que um dramaturgo ou roteirista pode escrever algo como parte de uma investigação pessoal, mas nem por isso ele vai criar um clima acadêmico. Basta observar que ninguém diria que Rei Lear é uma “investigação sobre a desagregação familiar / sobre a loucura / sobre a disputa pelo poder”, mesmo que, do ponto de vista do dramaturgo, a peça seja uma “investigação” (e, creio eu, a peça toma como premissa o discurso de Ulisses em Tróilo e Cressida), ou até diria, mas eu não consigo ver o público saindo do Globe Theatre há 400 anos fazendo esse tipo de comentário. Em suma, Shakespeare não estava querendo ser elogiado por ser inteligente e por contribuir para fazer do mundo uma grande sala de aula.

O teatro tem de representar crises e tem de resolver essas crises no palco. Crise no palco é legal. Crise na sociedade não é legal. Se todo o mundo vira uma grande sala de aula, então lugar nenhum é uma sala de aula. Se o teatro é uma sala de aula, então uma sala de aula é um teatro, e aí já começamos a ver a intrusão das obsessões com “com coisas lúdicas” na educação. Você não iria regularmente a uma lanchonete que quisesse fazer você pensar sobre o hambúrguer e não servisse um belo hambúrguer. Se a leitora não atingisse o orgasmo nunca, diria que seu namorado é incompetente. Fingir que o público não tem certas expectativas, ou sugerir que a diversão não é uma expectativa legítima, traz consigo um certo ônus. Se eu quiser aprender algo deliberadamente, abro um livro, faço um curso. Alguns de nós, inclusive eu mesmo, podemos querer ter contato com obras de arte para “aprender” algo (normalmente algo “vital” ou “existencial”, como: “o que é preciso para ser perdoado?”, e mesmo assim estamos em busca de exemplos inspiradores mais do que de teses), mas isso não quer dizer que estejamos eximindo os artistas de prender nossa atenção do mesmo jeito que Ana Beatriz Barros prende a atenção por meramente existir.

A pergunta que eu gostaria que fosse respondida pelos resenhistas teatrais é: foi bom para você? E por quê? Não quero saber exatamente se a peça teve o mérito de se assemelhar a uma investigação ou uma pesquisa: isso é para um pouco depois, ou bem depois, porque o lado investigativo precisa estar de certo modo oculto, a fim de aumentar a força da obra. E isso por uma razão muito simples. Uma propriedade de qualquer investigação séria é eliminar ambiguidades do discurso. Quanto menos ambiguidade, menos sentidos possíveis. Quanto menos sentidos possíveis, mais atenção intelectual é necessária, e menor a chance de a obra falar a diversos públicos. Veja que não estou falando de ambiguidade no enredo. Qual o enredo de Hamlet? O príncipe da Dinamarca, enojado com as rápidas núpcias da mãe viúva, recebe do que julga ser o fantasma do pai a missão de matar seu irmão e assassino, que aliás casou-se com sua ex-esposa, e mãe do príncipe. Ele fica na dúvida, faz um teste com uma peça, e mata meio por acidente o conselheiro real, o que gera uma vingança por parte do filho do conselheiro, e um duelo final, em que quase todos os personagens morrem.” Veja como “príncipe recebe do fantasma do pai a missão de matar usurpador do trono” é muito mais interessante do que “uma investigação sobre a condição humana”. Muito mais vívido do que uma tese, como “o sobrenatural não existe”, “o sobrenatural como projeção de recalques”, “meditação sobre a futilidade da vingança” etc. Eu não preciso de três horas de teatro para entender a futilidade da vingança. Você se vinga, o outro se vinga de novo, aí você repete, num ciclo infinito. É assustador, mas é basicamente só isso. Acabou a meditação. Tocou o sinal, a aula terminou.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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