A querela da “presidenta”, para não falar das rimas

Sou tradutor. Literário. Passo o dia inteiro com o Houaiss aberto, perguntando-me: posso dizer isso? Tal uso é legítimo? Uso o seguinte critério: se algo está no Houaiss, então pode, pronto, acabou.

Por isso, digo de uma vez: “presidenta” está no Houaiss. Vamos nos poupar da discussão sobre o particípio presente do latim. Não falamos latim. Falamos português. Sou totalmente a favor de não esquecermos nossas raízes, mas peraí, sou ainda mais a favor da sensatez.

Agora, se Dilma Roussef quer, apenas para usar um feminino opcional, abrir as portas para que a mesma regra crie suplentas, gerentas, tenentas e serventas (e por que não pessoas diferentas? Seria a diferença na diferença, a revolução dentro da revolução) e ainda expor-se a todos os adjetivos rimados com “-enta”, bom, boa sorte. O mojo dos humoristas televisivos brasileiros já se foi há bastante tempo, então realmente ela está segura.

E não vamos esquecer dos dentistos e dos ortopedistos.

Moral da história: parodiando São Paulo (1 Cor VI, 12), tudo lhe é permitido, mas nem tudo lhe é conveniente. Ou conveniento.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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