Vou ter de ser amigo de quem para poder entrar no teatro?

Acordo e leio no jornal que a ida de Ana de Holanda para o Ministério da Cultura é uma vitória de Antonio Grassi. O nome de Antonio Grassi me traz uma lembrança muito forte: foi com ele que aprendi o poder da nomenklatura na pequena escala, e o quanto ser de esquerda significa assumir um elitismo sem precedentes. Foi um pequeno episódio, que me deixou ressentido sim, é verdade, mas fica aí a chance para alguém que grasse com o Grassi defendê-lo.

E devo recordar que, se eu fosse presidente do Brasil, o Ministério da Cultura seria integralmente extinto no meu primeiro dia de trabalho. Digo isso para deixar claro que je m’en fous se Tiririca ou Sergio Mallandro forem seus ministros. Por outro lado, admito que, em todos esses anos, nunca vi um projeto não ser aprovado por razões ideológicas. O Ministério da Cultura é efetivamente um órgão técnico. Talvez por isso até o que vou relatar, que aconteceu na gestão de Antonio Grassi na Funarte (e na presença do próprio, porque eu estava lá e vi) tenha sido fruto do personalismo típico dos ditos amigos do povo, que agora esfregam as mãozinhas para repetir o feito em escala nacional.

No início de agosto de 2006, a Funarte realizou um festival de teatro russo em algumas capitais, inclusive o Rio de Janeiro. Foram quatro dias, e eu fui em três. Os ingressos eram gratuitos, bastando chegar antes para pegar a senha. Havia, para as apresentações na Fundição Progresso, 70 ingressos disponíveis para cada apresentação. Mas isso descobri no segundo dia. Porque no primeiro eu não consegui obter uma senha. No segundo, tendo chegado duas horas antes, consegui a senha de número 69. Após esperar no sol aquelas duas horas, entro no teatro, em que um palco atravessa duas fileiras de cadeiras em degraus, para ver que uma dessas fileiras já estava ocupada por Antonio Grassi & convidados da Funarte: a nova ministra talvez já estivesse lá gozando dos privilégios da nomenklatura, não? Fato é que metade dos ingressos foi para a burocracia & seus amigos, o que é um pouco semelhante a eu dar uma festa com o seu dinheiro, não deixar você entrar porque os ingressos acabaram, e dizer que realizamos um procedimento transparente e democrático.

O mesmo sucedeu no dia seguinte, em que nós que não somos do partido (também conhecidos como “particulares”, “pessoas privadas”, “meros cidadãos”) fomos obrigados a esperar mais de duas horas para pegar ingressos no teatro Cacilda Becker. Isso, é claro, para sentar nas laterais, porque o meio do teatro já tinha sido todo ocupado pelos amigos de Antonio Grassi.

É por isso que, como a produção cultural no Brasil é um epifenômeno dos orçamentos estatais, se Ana de Holanda vem mesmo de Antonio Grassi, eu fico me perguntando se a partir do dia 1 de janeiro vai ser importante conhecer alguém da nomenklatura para poder assistir a uma pecinha de teatro.

E se, como falei, o Ministério da Cultura até agora foi mesmo essencialmente um órgão técnico, pergunto-me se finalmente vamos ver o controle social da elite esquerdista no poder.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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