Sófocles explica o caso WikiLeaks

A coisa mais interessante do caso WikiLeaks é a dificuldade de classificá-lo. Seria Julian Assange um militante de direita ou de esquerda? Creio que é possível apresentar argumentos razoáveis para as duas opções. E, como eu mesmo não consigo ver direita e esquerda como substâncias, mas como qualidades meramente circunstanciais, e sempre definidas em função de algum outro, acho perda de tempo discutir isso.

Essa dificuldade de classificá-lo provoca um incômodo semelhante ao provocado pela hybris do teatro grego. Como assim, o rei de Tebas diz que ele é que vai acabar com a peste? Quem ele pensa que é, o Lula? O rei de Argos mata a própria filha e pára de pensar no assunto. Ele acha que vai ficar tudo bem. Então agora estamos liberando o filicídio? Aí vem a tragédia, para dizer que essas coisas não ficam barato. E aqui temos uma pista para começar a entender Julian Assange.

Assange teve hybris duas vezes. Primeiro, achou que podia botar 250 mil telegramas internos da diplomacia americana na boca do povo e que isso ia ficar barato. Depois, como um Berlusconi amador, achou que seu charme neutralizaria o ciúme das groupies. Após a ilusão de onipotência, a hora da verdade vem na forma de payback time. Sem contar que ele acaba de se colocar na formidável posição de bode expiatório de todos os governos. Tudo que der errado em política externa terá sido culpa do Julian Assange. Mesmo que não tenha sido.

Existe hybris também na liberação de 250.000 documentos diplomáticos. Até onde eu sei, Daniel Ellsberg, o famoso “homem mais perigoso dos EUA”, pelo menos liberou documentos porque sabia de atrocidades. Mas Assange e seus asseclas teriam mesmo lido 250.000 documentos? “Liberdade de expressão, êêêêêê!” Realmente não se trata disso. O governo, na sua essência, não presta um serviço no mesmo sentido em que um encanador presta um serviço. O governo estabelece as regras e mantém a segurança. Dizer que a liberação de documentos compromete a segurança é verdadeiro. No entanto, quando o governo americano te obriga a entrar numa máquina de raio-x que te põe pelado na frente de um gordo babado de donuts, você fica ressentido e acha que o sistema precisa tomar um WikiLeaks mesmo. Você tira minha roupa, eu leio a sua correspondência. Bem vindo ao círculo vicioso da tragédia, que já nos deu obras imortais como a trilogia da Orestéia e as peças do ciclo tebano. Haverá resposta a tudo isso, tenha certeza. E não vai ser boa. Para você.

Assim, a liberação dos documentos diplomáticos parece um ato motivado pelo ressentimento contra o sistema. O mesmo ressentimento que vem animando revolucionários desde pelo menos o século XIX e que algumas décadas depois não termina bem. Mas suspeito que não precisaremos mais de décadas. Tudo está acelerado. Vivemos na época da violência aleatória. Não necessariamente haverá uma guerra de uma nação contra outra, mas já estamos vivendo a guerrilha de todos contra todos. Assange, financiado por quem mesmo?, publica documentos. É preso por suas groupies. Mike Huckabee pede sua cabeça. Visa, Mastercard e PayPal, temerosos em relação ao governo dos EUA, congelam seu dinheiro. Hackers anônimos atacam Visa, Mastercard e PayPal. Não existe unanimidade a favor de ninguém, nem contra ninguém. Você vai deixar de usar seu cartão de crédito e débito? Nem eu. E você também sabe que liberar documentos internos dessacraliza, ou tira a credibilidade, do Estado. Agora existem duas opções. Ou você releva porque o Estado é feito de gente como você, ou você fica aí na sua vidinha infantil, achando que o Estado tem de ser feito de gente incorruptível. Eles estão tomando seu dinheiro com impostos, é verdade. Mas foi por isso que você achou que eles teriam de ser lindos, maravilhosos e incorruptíveis? E digo mais: se você acabar com o Estado nacional, não vai vir algo melhor.

Na época da violência aleatória, em que “todo ato é político”, isso é, todo ato é considerado uma espécie de violência por alguém em algum lugar, talvez alguém não goste deste texto, e ache que estou do lado dos hômi, e libere os conteúdos da minha conta de e-mail. Por isso vou até aproveitar para fazer um adendo. Acho que já disse isso. Há alguns anos criei uma lista para discutir liberdade e privacidade na internet. Fechei a lista. Não existe privacidade nem liberdade na internet. Aliás, com câmeras digitais e redes sociais, a própria ideia de privacidade já está amplamente questionada. Tudo que é digital é potencialmente público; basta que alguém com as devidas capacidades queira publicar. Estamos ainda vivendo o período que Marshall McLuhan chamou de incunabula, em que ainda não cristalizamos usos e regras para as mídias digitais, assim como já os cristalizamos para o livro, por exemplo. É o período do salve-se quem puder. Junte a incerteza (ou hybris, produzindo híbridos) tecnológica com os ataques à credibilidade do Estado, mais a própria hybris de governantes e de ativistas, e, como já disse, salve-se quem puder, com a ressalva de que a violência aleatória não respeita a regra de “mulheres e crianças primeiro”. Aviso logo que na minha conta bancária não tem quase nada.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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