A era do niilismo ainda nem começou

De um lado, a sociobiologia: a ideia de que os genes são uma espécie de “vontade e representação” do mundo, que tudo pode ser explicado a partir deles, esses deuses contemporâneos. Eu sei, você bate o pé, diz que os hierofantes de jaleco não são hierofantes, mas eu estou falando apenas de como eles aparecem na cultura, e culpar os genes, a posição de Saturno em seu mapa natal ou Cupido por alguma coisa que aconteça com você me parece a mesma coisa. Os genes vendem quando dão, compra-se a reprodução com as pelancas. Sobretudo quando se é mulher.

De outro lado, a neuroplasticidade: nossos cérebros podem ser moldados e remoldados por nossos comportamentos, por nossa decisão. Isso, nossa decisão: mas ainda assim esse princípio de autonomia não esconde que os mais profundos sentimentos blá blá blá são apenas reações químicas de alguma substância terminada em -ina.

O eu romântico não está preparado para esses golpes, para viver sacudido por esse debate. A crença de que somos ou de que podemos ser indivíduos autônomos não está preparada para isso. Não está, é claro, porque equaciona o problema inteiro de modo narcisista (romântico: é quase uma tautologia). Nem eu, nem os demais interessados em teoria mimética pretendemos dar algum refresco para o eu romântico: acreditamos que ele tem mesmo de ser sacrificado (de modo voluntário e pessoal, por cada indivíduo), em nome do interesse pelo outro.

A era do niilismo ainda nem começou. A ideia da ficção útil, que traz conforto e motivação, já parece totalmente aceitável. Para não abrir mão de certas formulações de questões existenciais, as pessoas cederão a um niilismo impotente e amoral, complacente e desinteressado, irreverente por jamais ter conhecido outra coisa, assassino por mal se importar com a própria vida.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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