O fim do mundo segundo Bruno Tolentino, ou: Prometeu já não furta o relâmpago

Hoje Bruno Tolentino completaria 70 anos, e eu estou traduzindo Achever Clausewitz, de René Girard.

Logo, só existe um poema no qual eu consigo pensar.

A imitação da música, 98
Bruno Tolentino. O mundo como Ideia, p. 441.

Prometeu já não furta o relâmpago.
Ícaro não aspira a um céu invinto.
Anteu não quer a terra nem o Olimpo.
Há um pretenso heroísmo cujo pântano

é um mundo aleatório como o instinto.
Vai surgindo outro sonho, outro esperanto
em Babel, uma torre confiscando
as altitudes que não vão subindo,

vão-se encolhendo e se resignando
às superposições do gesto ímpio.
Nem há mais, assombrados pelos campos,

um enigma, uma esfinge, um deus surgindo
sob as conjurações dos pirilampos.
Não: há um vazio, um lento labirinto.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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