Pruridos elitistas ou cinismo necessário?

Todos os dias eu começo a escrever um texto sobre o discuro eleitoral e eleitoreiro, mas todos os dias eu paro no meio, porque tenho dificuldades de acreditar que as pessoas esperam que um falatório entre dezenas de milhões de pessoas seja o equivalente a um sereno diálogo platônico cujos personagens são tecnocratas da mais alta estirpe. Antes de ter opinião sobre qualquer candidato, não posso deixar de observar que é impossível que uma eleição com dezenas de milhões de eleitores seja travada entre reis-filósofos feitos à imagem e semelhança da auto-imagem de pureza imaculada e sofrida que as classes médias intelectuais têm de si. Existe uma contradição bizarra nesse desejo, porque de um lado você quer ser membro de uma elite para mostrar que não é como o povão, mas na hora de votar você gostaria que o povão agisse como você.

Isso para nem falar de questões jurídicas objetivas. Se o tema do aborto passou a dominar o falatório, ninguém nem se pergunta que poder o presidente da república tem para mudar a legislação nesse sentido, e eu creio, do alto do meu pouco conhecimento, que o congresso é que pode interferir nessa questão. Mais ainda, os dois candidatos já demonstraram ser a favor do aborto. Você pode votar em um ou em outro, mas não, pelo amor de Deus, por suas afetações religiosas ou para combater a grande ameaça abortista. É razoável pedir que os candidatos se comprometam a não fazer certas coisas, mas como vamos pedir que eles mudem suas convicções? Será tão difícil perceber que quem mente nisso mentirá depois? Será realmente tão difícil fazer com que a eleição não seja um contrato da mentira?

Pode ser que, ao dizer isso, eu mesmo demonstre sofrer do mal que acusei nos outros no primeiro parágrafo. Pode ser que eu queira um rei-filósofo. Mas acho que só quero que a relação entre as palavras e as coisas sejam um pouco menos comprometida. Frequentemente acusam-me de cinismo por dizer que sou cético em relação ao Estado; por apontar que sempre presumem, ao dizer que cabe ao Estado fazer x ou y, uma certa superioridade moral sua que me parece, digamos, descabida. Fato é que realmente se coloca uma questão: ou você vai duvidar totalmente dos candidatos, e abster-se até de pensar no assunto; ou vai acreditar no que dizem, o que é manifestamente irracional; ou vai cinicamente admitir que uma coisa é o que eles vão fazer, e outra coisa é como eles vão ganhar votos. A primeira alternativa é confortável, mas tem um alto preço, que é o de desautorizar-se para a discussão. A segunda é viável se você estiver disposto a admitir que votar num partido é semelhante a torcer para um time: como é algo que se faz por identificação emocional, é algo que liga a máquina da perpétua autolegitimação. A terceira pode ser a mais razoável, mas paga-se por ela o preço de assumir definitivamente uma postura elitista, olhando de cima os tolinhos que crêem em políticos. Essa postura, aliás, a curto prazo, parece ao menos obrigar a uma estóica indiferença perante o mero fato de o povão votar como vota. (E, a médio prazo, a observar que as únicas pessoas que pensam em “bem comum” são umas poucas, e que não têm muito a perder porque não têm muita coisa mesmo.)

Sei que existe um Brasil estável e institucional que sente apenas de leve as ondas políticas (não que esse Brasil não tenha problemas), e que por isso não é cabível um supremo desprezo no estilo Vovó Ricarda Dawkins diante do Estado. Mas também não é cabível que se espere que gente que se esforçou para ser mais responsável intelectualmente consiga olhar o discurso eleitoral, com todas as mentiras, boatos, afetações e fingimentos como algo mais do que um circo grotesco.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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