“Casais bissexuais”

Tenho certeza de que todo mundo já recebeu anúncios bizarros no Gmail. Hoje, enquanto eu redigia uma inocente resposta para o Martim Vasques a respeito da entrega da próxima Anatomia do Poema para a Dicta&Contradicta, meu serviço de e-mails favorito proporcionou-me um impacto cognitivo, obrigando-me a meditar sobre a tão alardeada “diversidade sexual” do século XX.

Devo dizer de antemão que não tenho nada contra as pessoas de, digamos, sexualidade diferente da minha. Apóio a parceria civil, não acredito que o casamento civil gay (ou o casamento civil de uma pessoa e de um dicionário) seja o golpe de misericórdia na civilização ocidental; acho, isso sim, que é bom para a Igreja Católica desvincular-se do Estado.

Mas bem. Em sua ânsia de atender a esses novos públicos, eis que a Tecnisa põe um anúncio no Google. Para “casais bissexuais”.

Não sei se vou ofender alguém, mas preciso observar que um “casal bissexual” só pode ser um casal heterossexual, isso é, um casal com dois sexos distintos. Um “casal bissexual” em outro sentido teria de contar com pelo menos mais uma pessoa, para que um dos membros do casal propriamente dito pudesse exercer a bissexualidade que adjetiva sua relação. Fora isso, só há casais hetero ou homossexuais.

Talvez os militantes e acadêmicos pudessem começar a falar em heterogênero, homogênero, bigênero e poligênero. Porque, enfim, você pode inventar quantos gêneros quiser — e, eu sei, como todo mundo se acha único e especial, o sonho de toda pessoa é ser o único indivíduo do seu próprio gênero — , mas sexo, só tem dois.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com