A filosofia não existe para valorizar coisas

No mundo acadêmico, há um tipo de discurso que costuma passar-se por filosofia com grande frequência. Isso não seria tão problemático se não entendêssemos habitualmente que filosofia é uma discussão da verdadeira natureza das coisas, e que a disputa de posições é sua mera aparência exterior. Todas as, digamos, “inovações tecnológicas” na filosofia almejam aumentar o grau de pureza da discussão — tanto que há aqueles que, em nome de sua virgindade, declaram que a discussão mesma é impossível. Mas sabemos que esses estão apenas com vergonha de mostrar o corpo.

Enfim. Quero dizer que vejo com frequência no mundo das Letras a discussão sobre autores pautar-se por aquilo que um valoriza ou desvaloriza. Diz-se: fulano valoriza isso, portanto é bom. Implícito está que o leitor ou comentador também valoriza isso, o que quer que seja. Essa valorização é anterior à atividade intelectual, que se resume a um discurso legitimador. Quanto mais convincente, melhor; e aí se pode criar uma carreira acadêmica, dizendo às pessoas que se julgam intelectuais aquilo que querem ouvir, assim como uma comédia romântica do Freddie Prinze Jr. serve apenas para reforçar os estereótipos em que moçoilas de classe média gostam de acreditar.

Pode até ser verdade que o autor X valorize Y e desvalorize Z, mas de que serve saber isso, se não para saber para que time se pretende torcer? Não esperamos ser mais do que torcedores esclarecidos?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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