Os dilemas políticos

De um lado, sei que as coisas são de um jeito e não de outro, e que isso não depende de opinião. De outro lado, percebo que o estabelecimento de uma burocracia para obrigar as pessoas a fazer o que é certo leva imediatamente à corrupção dessa burocracia e a um descrédito dessas mesmas coisas certas (ver, por exemplo, Igreja Católica).

De um lado, creio que a sociedade deve se pautar pela recusa em usar a violência contra meros bodes expiatórios. De outro lado, percebo que o fenômeno do bode expiatório é tão universal e tão fundamental que a idéia de que ele possa desaparecer completamente é ridícula. As justificativas para a violência podem mudar, mas o poder de catarse temporária da violência contra outra pessoa só pode desaparecer quando todos assumirem as próprias culpas.

De um lado, creio que as pessoas devem ser livres para fazer o que quiserem sem ser imediatamente reprimidas, desde que não pratiquem violência física contra outros (se há outros tipos de violência, devem ser reprimidos após um processo judicial, não no ato). De outro lado, vejo que a autonomia do eu é uma das quimeras mais imbecis (sobretudo no caso daqueles que se preocupam em celebrar essa suposta autonomia), e que remover tabus equivale a abrir a caixa de Pandora.

De um lado, vejo que a sociedade precisa de valores. De outro, percebo que começar a falar em “valores” já lhes dá uma aparência de arbitrariedade e já começa a relativizá-los. Só é possível transigir a respeito de algo se não se transige a respeito de outra coisa. Só há sociedade quando todos concordam em não transigir a respeito de uma mesma coisa. Mas essa coisa não pode ser um “valor”. Para encontrar a continuidade distintiva de uma sociedade particular, seria preciso encontrar essa coisa a respeito da qual não se transigiu, isto é, aquela coisa que, se transgredida, provocaria a violência unânime de todos os membros.

De um lado, vejo que é difícil não pensar nesses dilemas. De outro, intuo que é fútil pensar neles. Se há uma vida eterna, só nos resta tentar ser bons e fazer o possível para não sujar muito as mãos de sangue.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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