Paraguai eterno

Eu tinha começado a escrever esse post semana passada, durante o jogo da seleção brasileira, para dizer que não podia nem ir ao cinema, e que isso não acontecia em feriado nenhum, exceto nas noites de Natal e de Ano Novo. Mas não me interessa dizer que isso é um absurdo e uma inversão etc. porque talvez não seja: aquilo que motiva as pessoas a ver um jogo de futebol é bem diferente daquilo que as motiva a festejar o Natal e o Ano-Novo.

Não me lembro se já disse isso aqui, a busca sugeriu que não, mas desenvolvi a hipótese de que a mobilização extrema provocada pelo escrete nacional se deve às saudades da Guerra do Paraguai. Diz a lenda, ou dizem os historiadores, que nada nunca mobilizou tanto o Brasil quanto a Guerra do Paraguai. Girardianamente, vou dizer que foi a nossa oportunidade de praticar uma violência unânime contra alguém e de assim afirmar nossa identidade. “Aqui não é o Paraguai.” Só que, se havia ideais na guerra, não ficaram; não ficou nada que pudesse valer como fundamento de uma identidade. O americano sabe que é americano por causa da Guerra de Independência e da Guerra de Secessão, mas a Guerra do Paraguai não nos legou uma identidade. Para piorar, ainda lemos nos livros de História da escola que Solano López era uma espécie de Elizabeth I que foi massacrada pelos hunos lacaios dos ingleses.

Estou quase fazendo uma digressão. O que quero dizer é que temos saudades dessa violência fundadora que nunca aconteceu. A Copa oferece uma versão suave dela, controlada — e eu mesmo, por favor, jamais sonharia em propor um banho de sangue terapêutico. Mas o fato permanece: enquanto o desfile de Sete de Setembro for ridicularizado e a memória das vitórias políticas e militares brasileiras inexistir, os dias de jogos da seleção nas Copas do Mundo continuarão a ser feriados forçados.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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