Onde vamos parar?

Diversas coisas – estou concluindo a faculdade, vejam só – têm-me mantido afastado do blog. Mas agora eu preciso falar da minha perplexidade. Acabo de ver Ferreira Gullar dizendo (no Globo de hoje) que a poesia de Salgado Maranhão tem “sinergia”. Ferreira Gullar! O que virá depois? Vamos um dia dizer que a poesia de Fulano “agrega valor” e “otimiza processos”? Vamos dar aulas de poesia usando apresentações de PowerPoint e aquele laser vermelho?

O leitor pode pensar que não passo de um purista que quer manter o reino da poesia e da crítica intocado pelo vil linguajar dos gerentes. Em muitos sentidos, é isso mesmo. “Agregar valor” pode entrar numa obra literária de duas maneiras legítimas: como zombaria e como expressão de um personagem que não se entende bem com as palavras.

Não podemos também deixar de cogitar que Ferreira Gullar estava na verdade sendo polido e gozando da cara de todos ao falar em “sinergia”. Se “sinergia” é uma espécie de complementaridade (eu queria dizer “concorrência”, mas ninguém lembra mais que há um sentido de “concorrência” que equivale a “correr juntos”) virtuosa de vários objetos para um mesmo fim, toda poesia tem “sinergia”, e dizer que essa palavra descreve a poesia de alguém é tão expressivo quanto dizer que a poesia de alguém é feita de linguagem.

Se Gullar estava sendo irônico, pois, tenho de perguntar se um dia não vamos poder descansar um pouco de tanta ironia.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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