O ideal do crítico

Antes de tudo, o crítico é um especulador de prestígio. Assim como o funcionário de um banco decide quem apresenta mais ou menos risco enquanto pagador de empréstimos, o crítico vai dizer ao leitor onde investir seu tempo e seus esforços. O prestígio que atribuímos hoje a Homero, Shakespeare, Balzac ou Machado de Assis vem dos críticos.

Se lemos um autor consagrado e não gostamos, presumimos que o problema é nosso; se lemos um autor desconhecido e não gostamos, presumimos que o problema é do autor, e isso não quase nunca tem a ver com a nossa capacidade de avaliar uma obra, e sim com o prestígio que lhe atribuímos previamente. Creio que já disse isso aqui.

Um dos principais problemas da crítica brasileira é ter pouco prestígio. Por isso ela não faz nem derruba autores, e morde-se de inveja do público que os escolhe à sua revelia.

Você pode nietzscheanamente querer recusar o papel de modelo, pode fingir que não tem essa responsabilidade, que quer que o público seja assim ou assado, mas essa força existe de todo modo. O crítico pode aceitar essa responsabilidade, ou continuar escrevendo coisinhas ininteligíveis somente para seus pares.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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