O choque da beleza incompleta

Desde sempre fiquei chocado com o fato de que mulheres bonitas e elegantes pudessem demonstrar um desprezo absoluto pela maneira de falar (incluindo a escolha de palavras e a clareza sintática), pelo gestual e por suas escolhas, digamos, culturais.

Mais grave é ver um desfile, em que modelos lindas e maravilhosamente vestidas têm de andar ao som de alguma música repulsiva. Por que os produtores do desfile escolhem essas trilhas sonoras? Por que não há um ideal mais completo de beleza?

É claro que nesse ponto podemos radicalizar e começar a discutir a beleza da alma, e como idealmente a beleza exterior seria um prosseguimento da famosa beleza interior etc. Mas não estou indo tão longe, estou ficando num nível bem raso mesmo. Ser bonito profissionalmente requer reflexão sobre a idéia de beleza. Por que essa reflexão se limita à dimensão da beleza da mulher parada na foto ou, no máximo, da mulher que desfila calada numa passarela?

As meninas não-lindas sabem perfeitamente disso e tentam valorizar-se por esses outros aspectos. Tanto é que você pode até encontrar mulheres que admitem sem problemas que não são deusas, mas nenhuma vai declarar que é vulgar (ela vai, no máximo, dizer que chique é ser vulgar). As meninas lindas podem também não se preocupar com esses outros aspectos porque a lindeza já lhes basta — mas, como já falei, elas refletem muito sob esse único aspecto. Será que os outros são tão distantes assim, a ponto de ser inimagináveis?

Não venha um leitor imaginar que eu esteja querendo conversar sobre Aristóteles com as Angels da Victoria’s Secret. Estou só me perguntando por que é que as pessoas que têm de ser belas por ofício nem sequer tentam levar essa beleza para alguns planos imediatamente relacionados. Isso é meio desconcertante.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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