A tragédia (em sentido estrito) dos desabamentos nas favelas

O primeiro uso da palavra “tragédia” é simplesmente “um acontecimento triste”. Falamos em tragédia ao contar que o almoço foi péssimo e ao lembrar da bomba de Hiroshima. Isso demonstra o quanto a palavra, em seu sentido corrente, está desgastada. O sentido que me interessa, é claro, é outro, é o sentido mais estrito, que remonta às tragédias gregas.

Sempre retorno ao assunto, porque meu interesse por ele é enorme. Creio que outra maneira de definir uma situação trágica é ressaltar que, nela, todos os envolvidos são ao menos parcialmente culpados, mas todos os envolvidos têm o poder de resolver a situação por meio da desistência. Creonte ou Antígona poderiam desistir, Édipo poderia desistir, Medéia poderia desistir, e Hamlet não faz outra coisa além de meditar sobre por que não desistir.

As tragédias dos desabamentos nos morros de Niterói e do Rio são tragédias nesse sentido mais estrito. Não são apenas acontecimentos funestos. São acontecimentos que revelam o que existe de trágico no Brasil.

Os primeiros personagens são os favelados. Dizer que eles não são responsáveis por morar nas favelas é tratá-los com uma condescendência vil. Há uma deliberação na escolha da moradia. Quem escolhe morar num lugar que pode simplesmente ser soterrado é responsável por isso. Ainda mais depois das imagens da pousada soterrada em Angra dos Reis.

É claro, porém, que os favelados foram limitados em suas escolhas pelas autoridades. O excesso de legislação, de planos de desenvolvimento, de projetos, de associações ilícitas com empresários — pensemos no lobby das empresas de ônibus — limita as opções de moradia. A deliberação necessária para morar na favela leva em conta o custo das demais opções, custo que, graças ao governo, só faz aumentar. Há também o famoso “alto custo da legalidade”, que leva muita gente, inclusive muita gente de classe média, para a economia informal. Assim, o segundo personagem, o governo, não quer abrir mão de “liderar o desenvolvimento”, nem das benesses advindas da corrupção que o “desenvolvimento” sempre traz.

O terceiro personagem é a parcela da sociedade civil que, dispondo de meios, inclusive materiais, poderia ter-se mobilizado, nem que fosse para pressionar o governo. De minha parte, sempre defendi, seguindo Hernando de Soto, que os favelados recebessem títulos de propriedade de suas moradias. Mas entendo a classe média. Pagando impostos sem parar, é difícil agüentar que pessoas que não os pagam subitamente ganhem riqueza. Bem, um dia nossos antepassados também ocuparam as áreas onde vivemos, é hora de nós mesmos olharmos quietos para a ocupação feita por outros. Simples assim. Poderíamos ter a opção de comprar barracos e urbanizar propriamente as favelas — os favelados que vendessem suas propriedades acreditariam ter feito um bom negócio e todos ficariam felizes. Mas não, a classe média sempre quis que os favelados fossem simplesmente removidos.

Ninguém fala isso porque, oras, se existe algo que você preza acima de tudo, TUDO, é que ninguém pense que você tem inveja. Por isso as favelas são um gigantesco não-assunto. Isso também é trágico. Porque há problemas reais nas favelas. A experiência acaba de mostrar que algumas delas realmente deveriam ter sido removidas, e provavelmente outras deverão também. O fato de as pessoas de esquerda quererem lançar a pecha de “anti-favelados” a qualquer pessoa que quisesse vagamente sugerir que, talvez, sei lá, pô, bem, veja só, aquela encosta é um perigo, é também trágico. Ninguém quer ficar mal visto e mal falado. A esquerda não quer abrir mão da sua auto-ilusão de superiodade moral, isto é, do seu “direito” de linchar.

O impasse trágico está formado. Os favelados não saem, as autoridades não agem, a sociedade não discute, a esquerda chique não quer menos do que uma mudança total de tudo. Todos estão simultaneamente justificados e encurralados. Enquanto isso, há um único risco, real, previsível, que é, como num efeito especial, como num mito de um povo primitivo, o céu e até a terra desabarem sobre as cabeças das pessoas.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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