As duas ordens

Existem no mundo duas ordens de coisas, ordens que podem às vezes ficar misturadas, mas que são essencialmente bem distintas. Na verdade, a percepção de que essas duas ordens existem é aquilo que diferencia um filisteu de uma pessoa normal, um aleijado psíquico de, novamente, uma pessoa normal. A maturidade pode vir com a dolorosa descoberta de que não somos tão ligados à primeira ordem quanto gostaríamos; que podemos agir como filisteus e aleijões com mais facilidade do que imaginávamos. Ainda assim, é preciso um orgulho tremendo para chegar a negar a existência mesma dessas ordens.

A primeira ordem é a da verdade, da boa vontade, da defesa, das coisas feitas com o desejo do bem alheio (mesmo que o alheio se refira a uma coisa). A filosofia, tal como a conhecemos, depende de um local privilegiado em que essa ordem impere. É preciso ter abandonado a disputa retórica, é preciso aceitar regras que invalidam a vaidade e equalizam os participantes. Certa vez ouvi na rua alguém falar da “opressão do silogismo”; melhor seria falar da “libertação trazida pelo silogismo”. É claro que a filosofia pode ser contaminada pela vaidade e pelo desejo de derrubar o adversário, mas é a própria ordem da boa vontade que permite que ela corrija a si mesma enquanto empreendimento coletivo. É a própria ordem da boa vontade que obriga seus participantes a renunciar a certos desejos antes de começar a discutir, assim como também obriga aqueles se aproximam do resultado da discussão a ter boa vontade para apreciá-lo, como numa espécie de esoterismo da vontade.

A segunda ordem é a da violência. A principal característica daqueles obstinados aleijões mencionados no primeiro parágrafo é recusar-se a acreditar que a ordem da boa vontade existe. O que os aleija é um temor paranóico, o temor de “ser enganado pelas aparências”. Por isso querem reduzir a filosofia a uma espécie de sofística, de expressão de consciência de classe, como se tudo aquilo que outra pessoa fizesse fosse necessariamente marcado por más intenções. Nessa ordem, impera a percepção de que o bem só pode ser obtido às custas da negação do outro, e a idéia do sacrifício de si mesmo parece o horror dos horrores, a Grande Mentira que ELES Usam para Enganar Você. O espírito que impera, é claro, é o de malícia, a malícia que faz as mulheres ficarem grosseiras como os piores homens, e os homens afrescalhados como as piores mulheres. É a malícia que abole as distinções e cria híbridos.

A primeira ordem atrai; a segunda ordem traga. E a descontinuidade entre elas é total.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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