Sentido e referência da ressurreição

Na noite de sábado, na vigília pascal, eu olhava a fogueira na frente da igreja do Mosteiro de São Bento, e pensava: literariamente, o significado da ressurreição pode até independer do fato da ressurreição. Compreendemos a mensagem. Existe a vida além da morte, o bem além do mal. A ressurreição pode até ser vista como uma espécie de superação, em que deixamos de lado uma forma velha para abraçar uma forma nova, sem que deixemos de ser nós mesmos. Isso tudo é fácil de falar e de entender; aliás, é até bastante banal. Uma “pessoa esclarecida”, obcecada com a idéia de nunca “se deixar enganar”, poderia até dizer que este é o sentido da narrativa da ressurreição de Cristo e não estar lá muito errado.

O detalhe é que essa narrativa não se refere apenas a uma experiência psicológica possível, disponível a todas as pessoas que seguirem certos conselhos, mas à experiência real de um homem há quase 2000 anos. Um detalhe absurdo? Ora, supondo que você creia na existência de um Deus bom e misericordioso, é inteiramente razoável crer que esse Deus não vai se limitar a enviar obras de auto-ajuda na forma de romance ficcional. Ele não vai estabelecer uma possibilidade para o homem apenas no plano da imaginação. O homem escreve histórias com personagens ficcionais, mas Deus escreve histórias com pessoas e fatos verídicos, e é mais verossímil, mais condizente com a natureza divina fazer assim do que preferir a maneira indireta. Privilegiar o sentido literário, a interpretação literária, é sugerir que livros valem mais do que fatos e que personagens valem mais do que pessoas; é opor à toda a religião uma reles e petulante visão pequeno-burguesa da vida, tomada agora como medida de todas as coisas.

Esse é o ponto em que o leitor mais atento há de reparar que a referência a um fato real muda o sentido da narrativa literária da ressurreição. Não se trata apenas de ter uma vida mais amena agora, de ser mais apresentável perante o mundo chique, de ter sentimentos nobres com ou sem aspas. Não: o que está em jogo é infinitamente melhor.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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