Niilismo pelancudo

Alguns dias após a mudança na lei, Els Borst, Ministra da Saúde da Holanda, admitiu numa entrevista que não via nenhum problema em oferecer “pílulas do suicídio” para cidadãos idosos que estavam simplesmente “mortos de tédio” com a vida.

Sympathectomy of the Soul, na First Things

Muitas e muitas vezes já se disse que a Europa só tem dois futuros possíveis: ou será recolonizada por imigrantes cristãos do Terceiro Mundo, ou será recolonizada por imigrantes muçulmanos do Terceiro Mundo. A julgar pela crescente ausência de vontade de viver dos holandeses, fica difícil acreditar na existência de uma terceira alternativa.

O aborto e a eutanásia são duas questões fundamentais, ou melhor, são dois aspectos da mesma questão fundamental, que é o significado da vida e da morte. Não falo apenas de se ter ou não uma vida eterna ou uma alma imortal, mas daquilo que se pode considerar uma vida desejável aqui neste mundo mesmo. Basicamente, você pode considerar que as adversidades da vida têm um potencial educativo que não deve ser desperdiçado, ou que elas não têm potencial educativo nenhum, que a dor é apenas dor, e que, a partir de certo ponto, o custo de suportá-la se torna maior do que o desejo de que ela passe, para que a busca do prazer possa ser retomada.

Dessas duas posições surge uma outra questão, política, que é: teriam aqueles que vêem sentido no sofrimento o direito de impedir materialmente o suicídio daqueles que não vêem?

Agora, francamente, muito francamente, creio que o simples fato de eu poder enunciar essa pergunta e soar razoável e sensato já denuncia outra coisa: que existe um número significativo de pessoas que apreciam a idéia de se matar de maneira indolor quando e se julgarem apropriado, o que, obviamente, também denuncia uma perda da vontade de viver, ou uma percepção de que a vida não vale tanto assim, ou só vale enquanto for gostosa. Não se deve supor que as pessoas que vivem segundo esse princípio estejam meramente sendo fracas: se eu mesmo não acreditasse que há sentido possível no sofrimento, também pensaria desse jeito. Existe nessa posição uma coerência: enquanto se é jovem e bonito e as oportunidades de prazer são mais abundantes, é fácil não pensar no próprio niilismo. Quando se fica velho, feio e pelancudo, é mais difícil encarar um longo e indefinido sofrimento, manifestado sobretudo pelo tédio e pelo desinteresse daqueles a quem se atribui prestígio: os jovens e bonitos.

Cá no Brasil, por sua vez, não podemos esquecer que as platéias chiques já verteram lágrimas de simpatia por uma eutanásia de heroína

Autor: Pedro Sette-Câmara

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