A vingança da realidade

Já fiz enormes esforços para tentar entender certo pensamento moderno que nega o real, que proclama o fim das utopias como um cataclisma sem precedentes, e fala do fim das ideologias como se agora naufragássemos na mais porca e absoluta miséria. Não consigo. Desde sempre isso me parece uma espécie de umbiguismo cósmico, de justificativa diante do fracasso de uma geração ocidental que achava não apenas que traria o socialismo, mas também que esse socialismo seria sensacional. Se a realidade não se deixou transformar pelos gritos ideológicos, então o real não existe; se os projetos utópicos não vingaram e perderam credibilidade, então foi o mundo mesmo que acabou; se as ideologias não deram conta das transformações sociais, então agora vocês que se danem para tentar explicá-las. A indiferença da realidade parece uma espécie de vingança, no mesmo sentido em que se dizia, ao menos nos anos 1980, que catástrofes marcariam a vingança da natureza contra a ação abusiva do homem.

A impressão que dá é que apenas uma maioria silenciosa e um grupo escondido acreditam que a realidade tem uma estrutura objetiva, que ela é geralmente previsível, e que não adianta tentar alterar isso, e muito menos ficar abalado quando não se consegue.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com