Livraria Leonardo da Vinci

Aproveitando uma lacuna de três horas no Centro do Rio nessa terça, saí debaixo de chuva à procura de um livro — O processo, de Kafka, na tradução de Modesto Carone. Um insight matinal me fizera querer lê-lo imediatamente. Era preciso ir a uma livraria, coisa que, admito, raramente faço. Ou vou sempre ao mesmo e idêntico sebo, ou compro na Livraria Cultura pela internet. Não é que eu seja um apologista da comodidade, nem que seja refratário a sair para comprar livros. É que eu quase sempre já sei exatamente o que pretendo comprar. Nunca fico clicando a esmo nas lojas da internet.

Passei por duas megalivrarias. Uma parece um shopping e só vende best-sellers. Outra, apesar de bem melhor, parece feita para pessoas que acham que letra de música é poesia e têm opiniões politicamente corretas. Então, sabendo que teria de andar mais um pouco, decidi ir até a livraria Leonardo da Vinci, pensando que, se a da Vinci não tivesse, então não haveria esperanças; isso seria um sinal de que Deus mesmo considerou o insight que me fez querer O processo uma futilidade, e me puniu com uma vã caminhada na chuva.

A Leonardo da Vinci não me desapontou. Mas algo mais me chamou a atenção. Fazia tempo que não entrava na loja. Nas prateleiras perto da porta vi dois livros de Michel Serres — não sabia que ele tinha sido publicado no Brasil. Nas mesas, diversas coisas interessantes, como o livro que namoro desde a última vez que fui lá, La mort volontaire au Japon. Um livro de Roger Scruton. Livros de editoras acadêmicas, aqueles que custam fortunas — importá-los para o Brasil e apostar na sua venda me parece um dos atos mais aristocráticos imagináveis (não sei se são sensatos comercialmente). Mentira romântica e verdade romanesca, de que fiz a orelha. E a sensação de que a livraria Leonardo da Vinci é o único lugar do Rio que transmite, na falta de expressão melhor, intensidade intelectual. Não falo, decerto, do fetiche do livro, nem enquanto objeto, nem enquanto, oh!, Cultura com C maiúsculo; falo do interesse pelo livro enquanto portador de idéias bastante específicas pelas quais se tem muito interesse. A Livraria não tem um café; ninguém vai lá para sentir que faz parte da classe culta. Você vai lá para deixar suas economias, sentir-se culpado, rasgado, torcido, mas feliz por ter encontrado um pequeno tesouro.

Além disso, eu diria que a Leonardo da Vinci é, sob um aspecto muito particular, uma espécie de anti-internet. Paul Claudel teria dito que a leitura do jornal matinal lhe dava “a sensação do presente em sua totalidade”. A tentação de dizer que isso foi muitíssimo superado pela internet é grande, mas é preciso fazer a ressalva de que a internet, por maravilhosa que seja, dá a impressão de ser uma vasta máquina de palavras ociosas, exatamente daquele tipo repudiado por Jesus Cristo (ver Mateus, 12, 36).

Note o leitor que não estou opondo a indústria editorial à internet, nem a era do livro à era digital. Estou opondo a Livraria Leonardo da Vinci à internet. Porque cada um daqueles livros novos, recentes, que ali folheio não parecem ser compostos de palavras ociosas, e sim de de palavras preciosas, como se ficasse muito bem ressaltado que cada um deles é um pequeno tesouro, composto dos pensamentos idos e vividos de alguém. É muito fácil passar o dia no computador, pulando de site em site, e ao fim sequer conseguir recompor o pensamento que me fez sair de A e chegar a B, além de, é claro, ter a sensação de esmagamento informático, causado pelo excesso e pela fragmentação. Ao entrar na Leonardo da Vinci, tem-se a sensação de entrar numa sala de maravilhas, sabendo que você pode carregar para fora da li algo na sua medida, de que você pode desfrutar de maneira continuada, intensiva.

Não sei se a Leonardo da Vinci enfrenta dificuldades nessa era de Amazon e de AbeBooks. Mas sei que, se algum dia ela fechar, aí poderemos dizer que, no Rio de Janeiro, a possibilidade de uma certa experiência foi definitivamente perdida.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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