Breve nota sobre a primazia do passado

Em “The World of the Sagas”, o segundo ensaio de Secondary Worlds, W. H. Auden propõe a tese de que as sagas islandesas são uma forma de realismo social.

Fiquei imaginando que a investigação dessa tese valeria um ensaio interessante, que teria de primeiro encontrar alguma definição socialmente aceita de — redundância inevitável — realismo social. Essa definição deveria ter surgido ou como uma proposta que deu origem a certas obras, ou como uma reunião de características de certas obras que passaram a ser classificadas como “realismo social”. Nos dois casos, porém, o aspecto convencional, isto é, daquilo que é socialmente aceito, teria de prevalecer. Inventar uma definição de realismo social para dizer que as sagas islandesas pertencem a esse gênero seria um mero truque retórico, que se aproveitaria do interesse gerado pelo contraste improvável entre algo tão aparentemente moderno quanto “realismo social” e algo tão aparentemente arcaico quanto “sagas islandesas”, sem, na realidade, demonstrar a semelhança entre os dois elementos.

Logo depois de imaginar isso, recordei que esse é um dos principais métodos de determinação do dogma católico: a determinação daquilo que é aceito há mais tempo e por certas pessoas, de modo a assegurar uma continuidade de crenças. Uma pergunta fundamental, diante de uma dúvida sobre a existência ou a inexistência de uma crença, é se um determinado grupo de pessoas — os apóstolos, os Padres da Igreja — a compartilhariam ou não. Assim, o método para saber se as sagas islandesas são uma forma de realismo social teria alguma semelhança com o método para saber se o Papa é mesmo infalível em questões de doutrina.

A principal diferença, é claro, é que, nesse nível, os gêneros literários só têm existência social, isto é, realismo social é aquilo que for aceito como realismo social. Assim como os autores literários têm de capturar seus leitores, também os críticos têm de convencer o público de suas definições. O dogma católico, porém, se refere a um objeto que existiria independentemente de sua formulação dogmática: se o Papa é infalível, é infalível mesmo que a Igreja nunca formule a doutrina da infalibilidade.

Permanece entretanto a semelhança do método de como chegar a uma determinada tese: a investigação histórica e a comparação literária, com o passado servindo de modelo (isto é, sendo mais do que mera informação) e de perspectiva.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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