Uma base estratégica para a retórica liberal

Meu texto propondo causas liberais teve uma boa repercussão:

As pautas liberais, de um autor cujo nome não identifiquei;
10 ações de minha agenda política, de Igor Taam;
Quais devem ser nossas prioridades?, de Diogo Costa;
Propaganda governamental, de Luciana Lopes.
Três propostas — e muitos debates, de Flamarion Daia Júnior.

Julgo que ainda preciso me estender sobre a primeira das causas que defendi, e que é, para mim, a mais importante: a discriminação obrigatória entre preço e imposto em todas as notas fiscais.

Muitos liberais querem dar uma de imaculados e equacionam as coisas erradamente. Não creio que exista a escolha de Sofia entre ser um perdedor cheio de razão e um vencedor que precisou corromper-se. Existe, pelo contrário, a escolha entre ficar num mundinho de sonhos, achando-se puro e lindo, e entender a situação imediata e questionar-se sobre o liberalismo possível. Na primeira opção, temos boa parte da situação atual, em que a defesa do liberalismo não passa de um passatempo burguês relativamente inconseqüente, que assume a nobre pose de “defesa de idéias”. Defender idéias é fácil, veja só: a verdade é boa e a mentira é má. Pronto, está defendido. O difícil é convencer as pessoas, e o sucesso da retórica depende da adesão da platéia.

Há muito tempo me pergunto, e não sou nada original nisso, por que posturas liberais não encontram mais interesse no Brasil. As pessoas gostam da prosperidade que o mercado traz, mas por que não juntam A com B? Penso que existem razões diferentes para isso, e agora vou explicar uma delas (e, posteriormente, outra razão).

Aristóteles explica na Retórica que o entimema é o mais poderoso recurso persuasivo. Ok, ele estava falando de discursos dirigidos aos homens livres de Atenas, isto é, uma pequena elite altamente educada. Hoje parece haver uma preferência pelo exemplo enquanto instrumento de persuasão, mas até o exemplo me parece estar baseado num entimema. Explico. O entimema é um silogismo de premissa maior oculta, com a qual o ouvinte já concorda de antemão. Se eu digo “aquele cara é nazista”, você já acredita que o nazismo é mau e você mesmo tira a conclusão de que “aquele cara” deve ser preso ou punido de alguma forma. Os guetos ideológicos, os grupos de amigos e todos os meios relativamente homogêneos compartilham essas premissas maiores de modo implícito. As estratégias de manipulação ideológica, por sua vez, tentam operar no terreno dessas premissas implícitas, e não no terreno das premissas menores e das conclusões. Agora você pode estar pensando que chegamos ao ponto em que vou defender a manipulação ideológica em favor do liberalismo. Nada disso.

Quando escrevi defendendo a discriminação obrigatória entre preço e imposto nas notas fiscais, meu objetivo era sugerir que isso contribuiria para explicitar e questionar uma premissa maior que parece onipresente no Brasil: a idéia de que o Estado é uma espécie de força mágica, movida a “vontade política”, capaz de resolver qualquer problema. Você não tem essa sensação em relação à sua vida privada. Você sabe que tudo tem um custo. Mesmo que você seja muito rico, tudo tem um custo de tempo: fazer algo é não fazer outro algo. Ainda assim, você pode acreditar que o Estado, como Deus, é capaz de abolir a fome, a doença, o crime e a pobreza, e ainda promover o turismo, criar filmes e programas de TV, tudo ao mesmo tempo. As pessoas que defendem esse grande e sensacional Estado onipresente nunca são obrigadas a responder à seguinte pergunta: “Tudo isso é muito lindo, mas quanto você quer pagar por esse Estado que já existe? Ah, você não sabe que já paga um bocado? Acha pouco? Quer pagar mais? Mas além de você querer que o Estado acabe com a fome no Brasil, você não achava que ele ainda deveria pagar operações de mudança de sexo? Acha que isso não custa nada, é?” E assim as pessoas começariam a medir o quanto pagam por ruas esburacadas, por segurança deficiente, por burocracias infindas, e saberiam que cada uma de suas idas ao cinema com jantar depois poderia custar talvez metade do que custa… Mais importante, talvez elas entendessem que achavam que o Estado era uma força mágica e, quando vissem na TV que agora o governo vai dar isso ou aquilo, perguntassem: “E quanto custa esse negócio?”

O fato é que não é possível discutir a sério como é o Estado que se quer, mínimo, médio, empresário, regulador etc. enquanto existe a possibilidade de um Estado máximo e divino que depende apenas da boa vontade para nos levar aos vales onde jorra o leite e o mel. É claro que esse Estado divinal é preferível, e é sua impossibilidade que precisa ser sentida, mais do que demonstrada, para que as pessoas excluam as opções inviáveis de suas mentes. Querer o Estado divinal é como recusar as mulheres que existem porque só Helena de Tróia seria uma opção aceitável. Esse é o sentido político imbecil da frase “sejam realistas, peçam o impossível”. (E Helena de Tróia não apenas não existe como, se existisse, ainda fugiria com outro sujeito.)

Não creio que haja jeito mais eficaz de promover o questionamento dessa premissa, que na verdade seria o primeiro passo para a maturidade do eleitorado em geral, do que tornar obrigatória a discriminação entre preço e imposto nas notas fiscais. Porque o povo brasileiro pode ter pago um trilhão de reais em impostos, mas isso me dói muito menos do que os poucos reais que deixei hoje em impostos no supermercado.

Os movimentos revolucionários em grande parte opuseram a religião ao Estado, fazendo daquela o bode expiatório a ser sacrificado pelo grande herói do secularismo. A questão política que se coloca é saber se temos maturidade para duvidar do Estado, questionar sua divindade, e ainda assim mantermos a ordem. A experiência americana sugere que isso é possível. A consciência de estar pagando muitos impostos, sempre, aumentaria o desejo de autonomia e, espera-se, de responsabilidade própria. Aqui, me parece, está o início de um programa liberal possível, a causa que pode abrir espaço para outras causas, as mais variadas, e para uma cultura política mais adulta, menos poluída pela crença no Estado-babá.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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