Canção do Narciso maduro

Qual Narciso maduro prestes a vingar-se,
abre os olhos, enxerga nada além do espelho,
e pergunta ao chão, teu destino e teu disfarce,
se aquilo na parede é um escaravelho.
Foi ontem que matamos nosso amigo,
e hoje nós o amamos mais que nunca.

Coisas há que apenas se praticam, jamais
são mencionadas; nem são feitas escondidas,
mas sempre à plena luz, e sem quaisquer sinais
que as apontem, perpetuamente protegidas.
Foi ontem que matamos nosso amigo,
e hoje nós o amamos mais que nunca.

Eis que vai sumindo a cidade na distância;
o caminho, somos nós que o vamos inventando;
nós podemos; sim; não queremos ambulância;
a certeza, somos nós que a vamos inventando.
Foi ontem que matamos nosso amigo,
e hoje nós o amamos mais que nunca.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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