Peleguismo contra o caos

No dia 29 de janeiro, O Globo trouxe um artigo de Thamy Pogrebinschi que era, como direi?, um primor de entrelinhas, tão rico que o senso de prioridades me fez desistir de analisá-lo. Hoje o mesmo Globo traz a notícia de que o PT pretende criar um Conselho Nacional de Política Externa, paralelo ao Itamaraty. E há, entre o conteúdo dos dois textos, uma interseção interessante demais para não ser observada.

Thamy Pogrebinschi falava sobre as conferências de direitos humanos, todas “convocadas pelo Executivo”. O Conselho Nacional de Política Externa teria a mesma liderança do Executivo, que pagaria as contas, estabeleceria a pauta, redigiria as conclusões e, mais uma vez, diria que tudo foi um “processo democrático”, no grau máximo de ternura sem endurecimento.

Agora, o governo não é burro e sabe tanto quanto seus opositores que sua estratégia contém o uso de elementos caóticos e desestabilizadores, como o MST. Suponho que pouca gente de terno e grava em Brasília realmente acredite que os movimentos radicais sejam uma fonte de ordem. No entanto, são uma excelente arma de intimidação, que pode ser contida e, portanto, utilizada, por meio do velho peleguismo de Vargas.

Getúlio Vargas, presidente da república, criou sindicatos e neles colocou seus aliados, os “pelegos” para “conter o avanço do comunismo”. Aliás, até senti a tentação de dizer que somente a perspectiva de uma estratégia de contenção do comunismo é que pode explicar a formação de sindicatos pelo próprio governo, mas uma vista mais ampla me lembrou que, no Brasil, nada nunca sucedeu de baixo para cima, da pequena comunidade para o país, e que o peleguismo de Vargas assume uma proporção mais razoável quando visto contra esse fundo.

Revivendo Vargas, o PT se vale desses “movimentos sociais” e os controla por meio de iniciativas que nascem no Executivo e são pagas pelo Executivo. Faz-se um documento, que, se for aprovado por omissão ou distração, agradará a todos. Se não for, é sempre possível culpar a sociedade conservadora, o próprio jornal O Globo etc. De todo modo, meia dúzia de líderes radicais ganham viagens internacionais em comitivas, ficam em bons hotéis, fazem apresentações e assim passam a achar-se líderes revolucionários celebrados pelas pessoas inteligentes do mundo inteiro. Trocam a sua revolução pelo prato de lentilhas do afago, e ainda se acham muito espertos. De volta à casa, eles seguram as forças caóticas que têm nas mãos e as alinham ao programa oficial.

Quando isso era feito por Vargas, era chamado “peleguismo”. Hoje é “democracia”, “socialismo do século XXI”.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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