Causas importantes para os liberais brasileiros

Fico pensando se não há causas prioritárias para o movimento liberal no Brasil, prioritárias porque ajudariam na consecução de outros objetivos. Os liberais nunca vão se unir positivamente, os retardados sempre vão achar que eu sou socialista só porque sou católico (já vi isso, mas quem falou também já tinha escrito que a existência de uma hipótese valia como refutação, então ele está protegido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e não deve ser mencionado), os rothbardianos vão achar que eu sou socialista porque acho que o Estado deve existir, e os sociais-democratas mais liberais sempre vão achar que eu sou um maluco radical anarquista.

No entanto, somos unidos por aquilo que sempre une as pessoas que têm desavenças e discordâncias e diferenças de identidade: um inimigo comum. O que será que é mais urgente, e traz menos discordâncias, até mesmo entre não-liberais, e que poderia servir para dar norte ao movimento? Aqui vão três propostas, selecionadas por esse critério. Não coloquei coisas como “liberdade de expressão” porque até agora não temos nada de muito relevante sendo proibido ou “fim do alistamento militar obrigatório” porque o número de pessoas que não quer servir às forças armadas e vai contra a vontade é pequeno demais (até onde sei).

São só três causas. Vejamos.

1. A instituição obrigatória da discriminação entre preço e imposto em todas as notas fiscais, em todas as instâncias. Claro que não estariam discriminados os impostos em cascata, mas apenas os impostos que incidem sobre aquela operação. Digo isso porque saber que o Estado brasileiro consome 37% do PIB tem muito menos impacto sobre a minha vida do que saber que, ao gastar R$50 no posto de gasolina, deixei uns R$26 na mão do governo. Isso é o que podemos chamar de “efeito da piada do mineiro”:

Dois mineiros caminhavam pela estrada.

— Cumpadi, se ocê tivesse seis fazenda, ocê me dava treis?
— Dava, cumpadi, claro.
— E se ocê tivesse seis boi, ocê me dava treis?
— Dava sim, cumpadi.
— E se ocê tivesse seis camisa, ocê me dava treis?
— Não, camisa eu num dava não.
— Pur quê, cumpadi? Fazenda e boi cê dava…
— É que seis camisa eu tenho!

Por isso, bem, eu não tenho bilhões de reais, mas R$50 eu tenho.

2. A abolição de toda e qualquer propaganda estatal, inclusive de empresas estatais. A razão é simples. Propaganda é parte de uma estratégia de concorrência. Governo não concorre. Logo, não tem de anunciar. Não posso escolher morar no Rio e usar a prefeitura de São Paulo, nem morar no Brasil e me submeter às leis americanas. Logo, anúncio de governo é sempre, invariavelmente, e em 100% dos casos um mero instrumento de favorecimento de empresários. Tem de acabar. Eu até acho meio curioso que a direita brasileira não perceba que há uma ligação estreita entre um ex-editor e um ex-prefeito de São Paulo que, quando deixou a prefeitura e foi disputar o governo, secou a fonte publicitária de uma certa revista…

3. Uma emenda constitucional que fale, à americana, em probable cause, isto é, algo que acabe com o poder da polícia de parar pessoas a esmo e extorqui-las, ou, como preferem dizer, procurar criminosos. Isso é importante por uma razão simples: para que o país funcione melhor, os cidadãos não podem odiar a polícia, ao menos não tanto assim. Antes de ser parado pela polícia, o sujeito tem de ao menos exibir algum comportamento claramente suspeito (como dirigir erraticamente).

Autor: Pedro Sette-Câmara

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