O Globo x Twitter da Lei Seca

Já é a segunda ou a terceira vez que leio no Globo alguma coisa contra o Twitter da Lei Seca do Rio de Janeiro.

É fácil perceber que O Globo apenas gostaria de encontrar uma brecha legal que permita derrubar o site. Afinal, O Globo considera que sua missão não é informar, mas civilizar a nós, os bárbaros habitantes cariocas. Um dos traços mais comuns do Brasil é mesmo a divisão entre jesuítas e índios, cada qual se considerando um Pe. Manoel da Nóbrega a catequizar os selvagens.

O Globo não percebe — ou finge não perceber — o seguinte: mesmo que dirigir embriagado seja crime, e que seja melhor cumprir leis idiotas do que desprezar as leis, o cidadão tem o direito de saber onde e quando pode se deparar com agentes do Estado, ainda mais quando estes agentes estão dispostos a coagi-lo a incriminar-se, violando o direito constitucional de não produzir provas contra si mesmo.

O raciocínio que afirma que a sociedade livre e organizada dentro da lei não pode alertar a si própria a respeito da ação estatal também afirma que os agentes da Polícia Federal podem entrar na minha casa, sem meu consentimento, sem um mandado, sem nada, e apreender o meu computador para verificar se não estou violando direitos autorais, armazenando fotos pedófilas etc.

Se antes eu disse que é melhor cumprir leis idiotas do que desprezar as leis, obedecer cegamente a leis que vão contra os princípios constitucionais e os mais elementares princípios morais é infinitamente mais pernicioso. É a tirania do bom-mocismo de terno e gravata, que transfere a sua raiva por não mais poder tomar uma tacinha de vinho no jantar e pegar seu carro para aqueles que continuam com sua tacinha de vinho, lêem o Twitter da Lei Seca, e seguem pelo melhor caminho para sua casa, sem matar ninguém, sem causar acidentes, sem nada.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com