Uma hipótese sobre por que o nazismo tem fama pior do que o comunismo

Há muito procuro a resposta para a seguinte pergunta: por que o comunismo, tendo matado muito (muito) mais gente do que o nazismo, não tem uma reputação tão ruim quanto este último? De início pensei no mero esforço de propaganda da KGB, na longa marcha da esquerda etc. Também pensei na onipresença de filmes sobre o massacre dos judeus na Alemanha nazista. Nenhuma das duas respostas me parecia suficiente.

Devo dizer, antes de prosseguir, que renuncio, no caso, a qualquer espécie de competição pelo maior número de vítimas. “Ah, foram tantos milhões de judeus? Pois foram tantos mais milhões de cristãos.” O número não torna nenhuma dessas perseguições mais aceitável.

O que penso, hoje, é o seguinte. O nazismo causa uma repulsa mais imediata e visceral porque representa, no Ocidente, a última manifestação grosseira do espírito da religião arcaica, a mesma, aliás, denunciada pelos profetas hebreus e por Jesus Cristo. O comunismo se baseia na seleção de bodes expiatórios de ocasião, escolhidos segundo a conveniência (ou o “pensamento dialético”); o nazismo, ao selecionar os judeus, expõe a arbitrariedade do mecanismo de seleção das vítimas de modo muito mais evidente do que qualquer outro sistema. Culpar os banqueiros / os burgueses / os reacionários / os religiosos é mais sofisticado porque eles são uma classe abstrata de pessoas, as quais podem ser selecionadas a cada dia, em cada circunstância, em cada país onde se trava uma luta comunista. Além disso, elas admitem complexidade; você pode ser banqueiro e amigo do governo, um reacionário que faz concessões, um burguês que ao menos tem a decência de tecer a corda com que será enforcado etc. Mas o judeu é simplesmente judeu e não pode deixar de ser judeu. Um católico pode largar a religião e deixar de ser católico. Mas um judeu, até onde entendo, mesmo que não tenha o menor interesse pela religião, e até seja ateu (e zombe do judaísmo de tal modo que seria chamado de nazista se não fosse judeu) continua tão judeu quanto o mais ortodoxo dos rabinos.

Por isso, quando as pessoas repetem a onipresente acusação de “nazista”, o que elas querem é dizer que alguém está selecionando vítimas de modo totalmente arbitrário e irrelacionado ao problema que se pretende resolver. Acreditar, mantendo o exemplo, que os judeus eram responsáveis pelos problemas alemães era acreditar num mito em sentido estrito, isto é, uma falsa acusação que encobre uma violência: os nazistas queriam era tomar as propriedades judaicas e dirigir o ódio da população a um grupo de pessoas, permitindo que a população se sentisse limpa, inocente, pura, superior, e ainda enriquecesse. Mas o método escolhido para isso já era transparente demais para a sensibilidade cristianizada, que vê as coisas do ponto de vista das vítimas. Por isso, todas as pessoas que se sentem perseguidas vêem um Hitler em seu algoz.

O comunismo, por sua vez, com suas perseguições, é, nesse sentido muito mais moderno, ou até pós-moderno. É uma ideologia que fala de um inimigo difuso, que atende mais à sutileza do mal-estar romântico, das pessoas que acham que têm direito a tudo e são oprimidas pelo mundo. Sacrificar esse bode expiatório não será suficiente; será preciso continuar sacrificando, e cada vez mais. Claro é que, se o nazismo não tivesse sido derrotado, teria chegado à mesma conclusão. O comunismo começou um ou dois passos adiante. Não custa lembrar que mesmo que Stálin cause repulsa a um anticomunista, ele não parece tosco como um oficial nazista. O assustador nessa sensibilidade é que isso demonstra que precisamos apenas de desculpas melhores, de mitos mais sofisticados, para praticar a violência. O nazismo é um assassino que sai de casa já sabendo quem vai matar e anuncia isso. O comunismo é um assassino que vai decidindo pelo caminho, justificando depois. Aparentemente, há muito mais tolerância para o segundo do que para o primeiro, porque queremos nos reservar o direito de selecionar nossas vítimas segundo nossas conveniências.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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