O caso brasileiro não é especial

Mui acertadamente, Paulo Polzonoff comenta um problema da literatura brasileira:

…literatura brasileira, em geral, não é livro que se queira ler. É livro que se pretende estudar, analisar, discutir. Aquilo que parece um romance é, na verdade, um objeto de estudo — um livro praticamente didático.

Logo, convém mesmo deixar a literatura brasileira bem separadinha daqueles livros que a gente compra porque quer lê-los à noite, antes de dormir, ou na praia. Minha sugestão é que o mercado editorial comece a lançar promoções do tipo “Compre este livro e ganhe uma tese”. Pode dar certo.

Sergio Rodrigues pode observar que nessa “provocação” há “generalizações indevidas”. Mas toda generalização é indevida… E eu não vou me dar ao trabalho de mencionar as exceções.

Recentemente a UFRJ me obrigou a ler um livro desses. Um romance contemporâneo que já valeu muitos mestrados. No meu trabalho a respeito, limitei-me a observar que ele não passava da mesma velha versão requentada do futurismo de Marinetti, que desde 1922 é vendida como a mais ousada das vanguardas literárias.

Os problemas já foram diagnosticados mil vezes. De um lado, os artistas são prejudicados pela crença no progresso. É mais importante jamais repetir algo do que fazer algo de bom, de interessante. Interessante no sentido de “algo que prenda a sua atenção”. Obras de arte podem ser profundas e até profundíssimas. Mas não podem ser chatas. Se só existe a parte profunda e profundíssima, o único leitor possível é o sujeito que já ganhou bolsa de mestrado e agora tem a opção de entregar a tese ou devolver o dinheiro ao Ministério da Educação.

Isso é que leva à estratificação da cultura brasileira. O povo vê Zorra Total e novela. A classe média vê séries americanas e inglesas e lê romances estrangeiros (ou, no meu caso, poesia e teatro). A suposta elite intelectual universitária consome coisas produzidas por ela própria. Lembro daquela terceira parte do Gulliver em que as pessoas tinham servos cuja função era despertá-los de suas conversas idiotas e hipnotizantes.

O efeito colateral disso é que até a parte interessante da produção cultural é malvista. Eu mesmo já observei a total irrelevância da poesia no Brasil. Poesia só interessa a quem escreve ou faz tese. O romance pelo menos encontra algum público naquela classe média de que falei.

E, no entanto, nada disso é novo na História. Como já se lembrou, vejamos o que diz Otto Maria Carpeaux:

A crítica literária alemã […] era puramente jornalística, era a pior da Europa, desdenhando, com incompetência, mas com certa razão, a indústria escolar dos universitários, chamados na Alemanha de então “os mais estúpidos dos homens”. (História da literatura ocidental, Introdução.)

O que significa: não é o apocalipse. Já estivemos melhor, mas o que temos hoje é apenas um fase. Não tenha também a vaidade de achar que a sua situação é pior do que todas as outras.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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