Eric Rohmer est mort

Conto de verão

Há muito tempo vi um filme, acho que foi A história de Adèle H. (e será que Isabelle Adjani já esteve mais bonita?*), que terminava com a morte de Victor Hugo. O espectador então ouvia vozes sem rosto que gritavam: “Victor Hugo est mort! Victor Hugo est mort!” Pois quando um artista como Rohmer morre, gostaria que daqui do meu apartamento eu pudesse também ouvir gritos, fossem em francês, em português ou em qualquer idioma cujo sentido eu conseguisse discernir, e soubesse que as pessoas estão gritando porque Eric Rohmer morreu. Foi ontem, eu sei. Mas ontem eu estava amordaçado e cercado por canibais de ossinho amarrado na cabeça, preso na Ilha de Bonga-Bonga, e só hoje consegui me livrar deles e reencontrar meu Aston Martin voador para voltar para cá.

Meu filme favorito é Conto de verão, embora talvez o melhor seja A inglesa e o duque. Na verdade, estou dizendo que meu filme do coração é Conto de verão, mas acho que pessoas que vêem dois filmes por dia e sempre escrevem sobre cinema talvez digam que A inglesa e o duque é melhor. Ou talvez eu esteja totalmente errado. O fato é que todos os filmes de Rohmer são bons e que, quanto mais velho ele ficava, melhores os filmes também ficavam. É verdade que nos filmes dele as pessoas falam muito, mas também é verdade que elas estão sempre representando um tipo. Conto de verão é, nas palavras de um amigo, “Malhação que deu certo, a prova de que é preciso ter 80 anos para filmar uma boa história de romance de férias”. E é isso que o filme é: um rapaz confuso se divide entre três meninas, sem ter o controle da situação em nenhum momento, mas se achando muito profundo. É verão, as meninas querem se divertir, e toda a atmosfera de relaxamento do filme se impregna até na sua roupa e você sai do cinema (eu me lembro de quando saí do cinema) como se tivesse ido à praia. E, é claro, há a Amanda Langlet, a moça da foto aí de cima (a mesma de Pauline na praia, que mostra que é possível envelhecer 13 anos como se fossem 3; ok, exagero, mas mesmo assim… Veja). Se você não se apaixonar por ela 300 vezes durante o filme, tem coração de pedra e discute bandas semi-conhecidas como se isso fosse um assunto relevante. É claro, porém, que boa parte do charme dela no filme vem de ela se fazer de difícil; o gostoso seria tentar vencê-la sem jamais revelar verbalmente seu estado perpétuo de blefe.

E olha que nem falei dos outros filmes.

*Sugiro que o leitor não procure fotos atuais dela.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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