Antinomias

This thing of darkness I acknowledge mine.
— Prospero

Tudo aquilo de que gostamos é complexo, único, irredutível e cheio de nuances. Não pode ser perfeitamente rotulado. Tudo aquilo de que não gostamos pode ser perfeitamente rotulado, explicado e reduzido.

O passado sempre pode ser uma fonte de memórias gloriosas, o futuro pode ser o depositário das mais sublimes esperanças. O presente, este momento que se possui imediatamente, é banal e comezinho. É apenas você e um computador.

Desde a Ilíada já encontramos quem diga — no caso, o velho Nestor — que “no meu tempo as coisas eram bem melhores, vocês não viram nada”. Você já ouviu isso dos seus avós, dos seus pais, e eu tenho vontade de estapear 120% das pessoas que começam a falar que “infância tem de ter bodoque e bola de gude”, ainda que eu mesmo pense que hoje em dia, essas crianças, sei lá. E já querem me estapear. Com razão, provavelmente.

Quando você faz algo bom, espera no mínimo uma medalha. Quer dizer, você conta para alguém o seu bom ato e espera a aprovação. Quando outra pessoa faz algo de bom, nunca é mais do que a obrigação. O seu bem é um ato de graça; o dos outros é simplesmente devido.

Quando você faz algo mau, foi compelido pelas circunstâncias. Quando outra pessoa faz algo de que você não gosta, ela é simplesmente malvada.

Quando você defende uma coisa pura e boa – a verdade! a vida! a democracia! a igualdade! a liberdade! as bolsas ecológicas! – , sempre faz isso pelas mais puras razões imagináveis, nunca jamais porque sua vida é chata, você está com raiva e, em vez de mostrar que é um ressentido, quer assumir o papel do anjo vingador, da promotoria do juízo final, alertando para a destruição iminente se os homens não endireitarem suas veredas. Quando outra pessoa defende alguma coisa de que você não gosta, ela é má, tem objetivos escusos, ou, na melhor das hipóteses, é uma tolinha iludida que merece a sua magnânima condescendência.

Você se reúne com seus amigos num clima de amizade e confraternização. Os outros de quem você não gosta só sabem falar mal das pessoas. Coisa que você nunca faz, claro.

Você não tem inveja. Por definição, esse é o sentimento que só pode ser atribuído aos outros. Você só sente no máximo aquela “boa inveja” afrescalhada, uma maneira de confessar admiração e demonstrar uma vulnerabilidade charmosa.

Não foi você quem começou. Foram eles. Você está só reagindo.

A diferença fundamental entre você e os outros, enfim, é que você está certo; suas motivações são puras.

Isso é o que me interessa agora. A formação dos duplos. Todo mundo pensa a mesma coisa a respeito de todo mundo e todo mundo está simultaneamente certo e errado. Todo mundo tenta demonstrar que é único e individual enquanto seus adversários são joguetes de forças maiores. Isso leva a uma denúncia universal, não a uma percepção da sua própria relatividade.

Girard cita um trecho de Proust que diz que “todo escritor só se torna verdadeiramente grande quando interrompe em sua mente o monólogo de suas próprias justificações”. Ou algo assim. Você entendeu — espero.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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