Vitimados pelos presentes

A gratidão é a mãe de todas as virtudes.
— Cícero

Tudo começou quando eu li uma matéria do Times a respeito do “horror” de dar e receber presentes. A matéria fala de namoros e famílias arruinadas por presentes. Presentes que foram dados com boa intenção. Fiquei chocado, mas pensei: esses gringos são todos hipersensíveis mesmo. Admito que, de modo geral, uma das coisas que aprecio no Brasil é que não somos tão sensiveizinhos assim.

Logo depois veio esse post no blog da Camila Lopez, que me lembrou de que a parte dos brasileiros que, como costumo dizer, só usa o português para falar com o caixa do supermercado, isto é, cujas referências culturais vêm todas do mundo anglo, também pode partilhar da mesma sensibilidade.

Claro que há uma ironia em eu começar citando o Times de Londres e depois “culpar” as referências em inglês. Mas vou ampliar a ironia porque, antes que eu pudesse fazer um comentário, acabei encontrando num insuspeito blog de moda, também em inglês, parte da resposta que eu queria dar:

…hordas de princesinhas estão sendo criadas achando que têm o direito de receber presentes de Natal perfeitos, exatamente como querem — essa é a impressão que eu tenho.

De um lado, é óbvio que alguns presentes denunciam que a pessoa que deu apenas cumpriu uma obrigação social. Mas ela poderia não ter cumprido, não é? Por que você acha que é tão especial que merece que todo mundo conheça você bem o suficiente para se antecipar a cada um dos seus desejos? No consultório do Dr. Pedro, eu recomendaria que todo mundo se olhasse no espelho de manhã e dissesse: “Eu não sou especial. Eu não sou especial. Eu não sou especial. Eu serei grato por tudo que tenho. Ninguém me deve coisa nenhuma.”

Esse é um belo exemplo do “sentimento paranóico” de que venho falando. Uso as aspas não por amar as aspas, mas para tirar a impressão de uma paranóia tensa e nervosa, embora a estrutura seja a mesma: a impressão de um eu bom contra um mundo mau, de um eu justificado, nuançado, particular, irredutível, genuinamente individual, I did it my way, contra um mundo “padronizado”, em que as pessoas agem segundo padrões previsíveis, e são desindividualizadas, uma vasta multidão pronta a linchar a inocente e pura consciência do indivíduo que se recusa a se submeter.

A menina cuja frase traduzi falava só em princesinhas. Façam um teste: se um texto contra ganhar presentes fosse escrito por um homem, o que ele pareceria? Ah, mas a Camila Lopez citou um personagem homem. E o que é que ele parece?

A idéia de trocar presentes por dinheiro, proposta por ele, parece boa à primeira vista. Dar dinheiro é dar a outra pessoa mais controle sobre a própria vida, mas também é fechar-se à oportunidade de ser afetado pelos outros e ao inesperado. Há nisso uma apologia oculta da auto-suficiência. Tenho um sério problema com isso porque alguns presentes que não pedi me afetaram muito: desde roupas que eu não teria tido a idéia de comprar até músicas e livros que mudaram a minha vida. Por exemplo, este blog só existe hoje por causa de um desses presentes. Em 1996 ou 1997, Leopoldo Serran me deu O jardim das aflições, de Olavo de Carvalho, e eu só comecei a ler o livro porque achei que o Leopoldo encheria a minha paciência se eu não lesse. Já conhecia Bruno Tolentino então, mas foi só através de Olavo de Carvalho que o conheci pessoalmente e que conheci diversos outros autores, como o übercitado do momento, René Girard. Diariamente agradeço ao falecido Leopoldo Serran por ter-me dado um livro que não quis e que comecei a ler a contragosto, para cumprir uma obrigação de gentileza.

Tenho a impressão de que no passado éramos mais estimulados a estar abertos para os outros, ou ao menos que a capacidade de aproveitar o que se recebia era mais prestigiada socialmente. Talvez isso tenha mudado, talvez sejam só esses textos. Mas há em coisas que não pedimos a possibilidade de uma educação, e todo presente merece alguma boa vontade. Parece que há 10 anos isso que agora digo seria um clichê. Hoje soa meio revolucionário.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com