Cânon x obra

É verdade que agora, mais do que nunca, tendo escrito uma peça de teatro, que espera uma montagem, sou parte interessada, e o leitor pode aceitar tudo que eu disser com alguma reserva, mas lá vai.

A qualidade de uma obra e o fato de ela ser popular ou entrar para o cânon são duas coisas distintas, que seguem regras distintas, ainda que o resultado final possa coincidir. Acredito que, quanto maior a escala de tempo, menor a chance de o cânon deixar entrar alguma coisa ruim, ainda que nada impeça que algo bom não esteja devidamente canonizado – para mim, o exemplo paradigmático disso, na poesia brasileira, é o livro Ausência viva, de Octavio Mora, que nunca passou da primeira edição em 1956. Por outro lado, quanto mais regredimos, mais difícil é encontrar obras cuja consagração é indefensável. E, quanto mais próximos estivermos do presente, mais sentiremos a presença de modas passageiras. Custa-me crer que Paulo Leminski e Ana Cristina César venham a estar no capítulo seguinte a Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade nas obras de crítica literária brasileira do século XXIV.

Há muito me preocupo com a percepção da qualidade literária segundo critérios, digamos, naturais. Economia, unidade, clareza, por exemplo. Tudo isso aumenta a força da obra, ainda que precise ser qualificado. Economia diante de quê? Claro que Os Lusíadas não pode ser econômico no mesmo sentido que um epigrama. Unidade de quê? Onde estaria, por exemplo, a unidade em “The Love Song of Alfred J. Prufrock”? Não nos elementos “tradicionais”. Clareza para quem? Para ficarmos em Eliot, sua apreciação pode depender de uma certa erudição… Mas são critérios tangíveis, que podem ser aplicados pelos homens de boa vontade, por pessoas adultas o suficiente para distinguir aquilo de que gostam daquilo é digno de admiração. Eu mesmo admiro T. S. Eliot, mas acho que nunca vou amar sua poesia como amo a de W. B. Yeats.

Claro que boa parte da crítica literária deve se dedicar a explicar por que algo é bom. Mas, como já disse, isso não nos impede de gostar mais de algumas coisas do que de outras. Isso não impede uma obra de ter uma determinada repercussão. É aí que o cânon começa a se formar.

O cânon é basicamente a opinião dos outros, a opinião que confere prestígio o suficiente a um objeto para que você o deseje e, numa grande medida, o respeite. Se você tentar ler Crime e castigo e não conseguir, vai presumir que o problema está em você, não em Dostoiévski. E por quê? Como você mesmo não tem qualquer contato direto com Dostoiévski, você vai respeitá-lo apenas porque outras pessoas o respeitam. Não que isso não seja razoável, claro. Mas estou falando da motivação, não do que é razoável. É a mesma coisa que entrar numa exposição de um artista novo e sentir-se à vontade para achar tudo ruim, mas entrar no Louvre com temor e reverência. As obras do Louvre estão no Louvre, foram sancionadas pelo cânon, seu consumo é permitido e recomendável. Aliás, mesmo que você não perceba nada daquilo que viu no Louvre, só ter ido lá lhe confere o prestígio das pessoas cultas, uma espécie de capital social. O mesmo idêntico raciocínio vale para qualquer outra obra de arte. Um livro de poemas do Zé das Couves pode ser melhor do que Mensagem, de Fernando Pessoa, mas você não vai ler o livro de das Couves com o mesmo entusiasmo com que lê um de Pessoa.

Idealmente, um crítico de arte seria uma pessoa capaz de apreender a qualidade das obras e conferir prestígio àquilo que merece, isto é, viabilizar a existência social (e em muitos casos material) do artista. Assim, o crítico iria formando o cânon a partir de critérios mais esmerados do que “gostei” ou “não gostei”. Na verdade, todos nós acreditamos que os críticos fazem isso, assim como acreditamos que eles se equivocam quando não concordam conosco, e que isso acontece quase sempre etc.

Não vou dizer que deveríamos dar um jeito de ter uma máquina mais confiável de concessão de prestígio. Meu objetivo é simplesmente chamar a atenção do consumidor de arte para o fato de que seu consumo quase sempre vem não de uma apreciação própria e sua das obras, mas do simples prestígio que a obra recebe de determinadas instâncias.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com