A caixa preta da esquerda

Na peça Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, D. João de Portugal, capturado pelos árabes na Batalha do Alcácer finalmente retorna a Portugal, onde se apresenta como o marido desaparecido de sua esposa, que, há anos, está casada com outro homem, Manuel de Sousa Coutinho.

César Benjamin deu uma de D. João de Portugal na última sexta, com o detalhe de que o nobre lusitano esteve preso e impossibilitado de se comunicar. Continua me parecendo irresponsável da parte da Folha publicar uma acusação tão grave contra o presidente da República sem que haja corroboração de outras fontes. A impressão que eu tenho é que, se eu enviar um artigo relatando meus contatos com marcianos, avisando que la garantia soy yo, então ele será publicado, e os fatos serão verificados depois — por outro veículo. Parece que o conceito de jornalismo que está sendo praticado é que fato é alguém dizer que algo aconteceu, não que algo aconteceu. E parece mesmo que ninguém se importa com o fato de César Benjamin ter pressuposto que é normal trabalhar para que um estuprador chegue à presidência. Será que foi só o filme O filho do Brasil que o motivou a revelar isso agora? Por que não antes?

Mas eis que a revista Veja achou a vítima, que prefere não falar no assunto. Realmente, quando a vítima não nega ser vítima, e ninguém nega peremptoriamente o ocorrido, só podemos recordar que, na velha URSS, a subjugação de “meninos do MEP” recebia o epíteto de “o vício fascista”. Se a vítima não quer apresentar queixa, podemos também recordar todas aquelas campanhas que incentivavam as vítimas de estupro a procurar a polícia… E também cabe perguntar como isso respingará em Lula aos olhos do povo. Porque é claro que o presidente não pode ir à TV dizer coisas como “não sou estuprador”. Mais ainda, cabe perguntar o que mais César Benjamin et caterva sabem. E, o que mais me interessa, admito, perguntar se esse evento não marca o início de uma implosão da esquerda. Abrindo-se a caixa preta, ou a caixa de Pandora, não vai restar esperança nenhuma no fundo, e não porque o medo a tenha vencido.

O outro aspecto que me interessa é como a motivação contrária ou favorável a alguém influencia a atribuição de credibilidade. Admito sem problemas que se o New York Times publicasse uma reportagem dizendo que o Papa Bento XVI é um estuprador eu simplesmente não acreditaria. Se um vizinho dissesse isso do meu pai, de um amigo meu, eu não acreditaria. Eu concederia sem pestanejar o benefício da dúvida ao Papa, ao meu pai e ao meu amigo. Mesmo que eu prefira o PT fora do poder (sem saber exatamente qual partido eu gostaria de ver na presidência), não vou linchar Lula porque, 15 anos depois, sem oferecer nada além de um testemunho pessoal, um militante de esquerda que, até ontem, qualquer direitista diria indigno de confiança, vem fazer uma acusação gravíssima contra ele. Francamente, ter dado crédito imediato a César Benjamin, nessas circunstâncias, me parece tão infantil quanto acreditar quanto acreditar que O filho do Brasil é uma pura obra de arte desinteressada de seu contexto.

Agora, enfim, não acho que seja o caso de dizer que se pode linchar Lula. Não sei se a lei brasileira obriga a que alguém investigue uma tentativa de estupro à revelia da vítima — que, nesse caso, não parece disposta a colaborar. Não sei se o crime já prescreveu. Mas sei que espero que, ao menos politicamente, ele enfrente um longo e horrendo ostracismo. O que provavelmente não vai acontecer.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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