É imbecil ser contra armas de brinquedo

Leitores de Rousseau acreditam que o homem nasce bom, até meio rosado, e a sociedade corrupta e má é que o estraga. Nunca entendi isso. A sociedade é feita de outros seres humanos que também nasceram bons. Não sei que sociedade é essa de que essa gente está falando. Deve ser alguém muito mau.

Eu sou leitor do Gênesis. Acho que temos o pecado original e somos a estirpe de Caim. Nascemos maus. Francamente, acho que as crianças atingem níveis de amoralidade e egoísmo que, num ser humano adulto, seriam considerados patológicos. Somos maus. Temos de aprender a ser bons. Eu sei, eu sei, você acha que não, que está cheio de sentimentos sublimes, que a sua nobre alma se escandaliza com a plebe ignara que o maltrata diariamente. É por isso que você nunca fala mal de ninguém, nunca despreza ninguém. Quando você faz isso, é justo. Quando os outros fazem, é maldade. Claro.

Mas bem. Retorno. Armas de brinquedo são importantes, porque somos maus e violentos. Não é possível abolir a maldade, nem o instinto violento. Violentos, sempre os terei. É possível administrar a maldade e a violência. Ensinando às crianças o que são armas. O que as armas podem fazer. O que não se pode fazer com elas. Em que circunstâncias se pode usá-las, em quais não se pode. Só se pode ensinar crianças a respeito de armas usando armas de mentirinha. Só se pode deixar de ensinar crianças a respeito de armas se você acreditar que elas jamais verão armas na vida. Quanto a mim, moro no quarteirão da delegacia, e todo dia vejo armas.

Não é possível ensinar um código de honra sem lidar com a violência. Escolher não lidar com a natureza violenta é a maneira mais imbecil de lidar com ela. É a maneira mais segura de garantir a propagação de uma violência irracional, irrestrita, porque incontida pela idéia de honra.

Honra não é dar as mãos e cantar uma música da Xuxa. Honra é saber que o mal virá, que ele está em você, e que é preciso contê-lo, muitas vezes com sacrifícios.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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