Lula, bode expiatório da pseudointelectualidade

Há mais uma polêmica no jornal, dessa vez vinda do universo da música popular, a respeito da falta de leitura de Lula. Ou a respeito de ele não exsudar eflúvios intelectuais. Houve um tempo em que eu mesmo me juntaria automaticamente aos linchadores e, do alto da minha coleção quase completa de Arden Shakespeare, começaria a falar contra a desintelectualidade do presidente. Não é nem que hoje eu não ache que, bem, ao menos ele poderia ter evitado certas declarações. Mas não só cansei da brincadeira, como acho que ela revela mais sobre os detratores do que sobre o presidente. Afinal, é verdade sim que Lula, pelo que diz, não escolhe passar seu tempo livre na companhia de Homero. A pergunta é: por que é que você se importa tanto com isso? Repetidas vezes, basta examinarmos não o conteúdo do que estamos dizendo, mas a nossa motivação para dizer algo, para chegar a alguma verdade desagradável sobre nós mesmos. Isso, na minha boca, parece uma platitude, fácil de descartar como qualquer platitude. Vamos, porém, colocá-la na boca de São Paulo:

Por isso, quem quer que sejas, ó, homem que julgas, tu és inescusável, porque, naquilo mesmo em que julgas a outro, a ti mesmo te condenas, visto que fazes as mesmas coisas que julgas.
(Romanos, 2, 1)

Uma afirmação dramática. E se você fosse culpado das mesmas coisas que mais condena nos outros? E se o fundamento da sua identidade fosse aquilo que você mais proclama odiar? Mas bem. Sigamos com o Lula.

A primeira coisa que chama a atenção no discurso contra a desintelectualidade de Lula é o ressentimento com o fato de alguém que leu tão pouco ser presidente. Olhando o nível das campanhas, a quantidade de eleitores, e a existência de meios de comunicação de massas, difícil é entender como alguém se surpreende com a eleição de um candidato que tem apelo… para as massas. Será que estou sugerindo que se castre o voto popular? Não, estou apenas observando uma conexão plausível entre dois fatos.

A segunda coisa que chama a atenção nisso é que não me lembro de ninguém que realmente passe o dia no silêncio dos livros, e cuja vida pública seja antes marcada pela publicação de austeros trabalhos científicos, ou de esmeradas publicações literárias, e que venha falar contra o presidente. Não há interesse, porque há interesse demais por outras coisas. Não: quem vai para o jornal fazer polêmica contra a falta de leitura do presidente é quem está ressentido por achar que, por ler cinco livros por ano (três por obrigação profissional), merece o prestígio de Platão e Aristóteles. E muito dinheiro, claro. Ande por uma universidade e ouça os bolsistas e pleiteadores de bolsas reclamando que o país é subdesenvolvido porque… o governo não apóia as pesquisas deles. Ou “pesquisas”. A essas pessoas, só posso perguntar quando foi que elas enxergaram alguma conexão entre o amor ao saber que tanto proclamam e o sucesso financeiro ou mesmo político (os quais, é claro, podem ser a mesma coisa). Para ganhar dinheiro, é preciso atender aos outros. Mas a busca pelo saber é eminentemente pessoal. Vocês querem, então, fazer só o que querem e ainda ser prestigiados por isso? Ora, cresçam.

A terceira coisa que chama a atenção é que a própria atenção dada à origem das denúncias contra o presidente denuncia a fajutice dessa intelectualidade. Um cantor popular. No Brasil, a música semi-popular virou uma espécie de artefato de “intelectualidade”. Eu, por exemplo, gosto bastante de Gilberto Gil, mas sei que a diferença entre Gilberto Gil e Cristina Aguilera é bem menor do que a diferença entre Gilberto Gil e Schubert, meu compositor do coração. Não consigo imaginar, nos EUA, a capa do Wall Street Journal trazendo a notícia de que Cristina Aguilera reclamou que Bush não gosta de ler. Mas aqui, O Globo põe na sua capa que Caetano Veloso reclamou de Lula. Por quê? Não foi mero oposicionismo. Foi porque os jornalistas do Globo acham que são intelectuais. Porque gostam de Caetano Veloso. Isso parece um filme americano de high school. Os nerds cheios de espinha se ressentem contra o quarterback que tem a atenção da escola.

Isso vem na mesma semana em que Roberto da Matta repete a falsa acusação contra Lula, nas mesmas páginas do Globo; não é novidade, e já discuti essa afirmação quando veio da primeira vez.

Agora, vejam só. Sou “de direita”. Sou liberal. Creio que o papel do governo é estabelecer as regras do jogo, não determinar o placar. Não sou petista, não creio em intervencionismo, li boquiaberto as declarações recentes de Lula sobre a necessidade de “a Vale ter de estar afinada com os objetivos da União” e decerto não votarei em Dilma Roussef, assim como não faço parte de partido nenhum. Não faço campanha política, não sou obrigado pelas circunstâncias a, digamos, adotar as técnicas do meu adversário. Existem maneiras e maneiras de opor-se ao presidente. Acusá-lo do que ele não disse e jogar ressentimentos infantis contra ele é vergonha demais. É a mesma coisa que assumir o pior da esquerda, só que com a polaridade invertida.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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