Ainda auto-estima x hetero-estima

O texto abaixo foi escrito após eu ter visto que aquilo que escrevi como boutade (ainda que de conteúdo sério — é mesmo a minha opinião) foi discutido com grande atenção por pessoas que eu estimo.

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O que mais chama a atenção em relação à famosa auto-estima é que só parece haver duas atitudes em relação a ela: ou você simplesmente não pensa no assunto, ou você acha tem problemas de auto-estima. Eu estou entre os que não pensam no assunto. Não porque eu me considere uma pessoa incrível e sensacional que paira acima dessas vis questiúnculas, mas porque estou interessado demais em outras coisas, como Shakespeare, teoria mimética, grego, política. Isso não significa, é claro, que eu não tenha uma idéia de mim mesmo, nem que eu não me compare com outras pessoas; significa, isso sim, que tenho meus modelos, sei quem eles são, e esforço-me para imitá-los. No mínimo, imitá-los no sentido de ver o que eles viram. Shakespeare, sempre; René Girard, Sófocles, Geoffrey Hill, Bruno Tolentino, Lawrence Flores Pereira, e mais. Eu sei que a minha auto-estima é uma hetero-estima. Aqui eu chego a algo que posso considerar uma espécie de paradoxo da humildade. Não posso querer ser igual aos meus modelos, e não posso deixar de querer ser igual aos meus modelos. Não posso fugir desse dilema dizendo que na verdade eu deveria querer tentar “ser eu mesmo”. Todos os meus modelos também tiveram modelos. A grandeza deles veio da humildade diante dos modelos. Humildade genuína que, sim, tem a ver com humilhação. Isso, aliás, me lembra da parábola presente em Lucas, 14:

8 Quando por alguém fores convidado às bodas, não te reclines no primeiro lugar; não aconteça que esteja convidado outro mais digno do que tu;

9 e vindo o que te convidou a ti e a ele, te diga: Dá o lugar a este; e então, com vergonha, tenhas de tomar o último lugar.

10 Mas, quando fores convidado, vai e reclina-te no último lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, sobe mais para cima. Então terás honra diante de todos os que estiverem contigo à mesa.

11 Porque todo o que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado.

Agora, se você tem problemas de auto-estima, você está se debatendo com a seguinte pergunta: “Por que eu não consigo gostar de mim mesmo, mesmo quando outras pessoas gostam?” Claro que aqui estou supondo que você consegue acreditar que as outras pessoas realmente gostam de você, mas isso não faz muita diferença para o que direi a seguir. Creio que o problema da auto-estima vem do desejo de autonomia absoluta, que continua a ser uma hetero-estima. Você olha para o meio, para as pessoas em torno. Percebe que elas atribuem prestígio a certas coisas e decide diferenciar-se, atribuindo prestígio a outros objetos. Você passa a competir para ver quem vai conseguir imantar os objetos de prestígio. Será que, no seu meio social, as pessoas continuarão a valorizar aquele tosco autor semi-conhecido da classe média, ou valorizarão aquele autor de que você gosta — e que você, por gostar dele, sente que está unido a uma classe superior de pessoas, a um outro mundo, necessariamente melhor?

Mesmo que — e sobretudo se — você tiver sucesso, ainda assim você verá que tornar-se o modelo que cobre os objetos de prestígio não fará muita diferença na sua vida. Nenhum dos objetos é mágico. Além disso, se as pessoas passam a seguir você, imediatamente elas perdem prestígio, e você nem sabe mais onde encontrar aquele prestígio perdido. O prestígio precisa ser renovado sempre, e sempre sutilmente. Se uma mulher diz a outra que seu marido é indesejável, essa primeira mulher apenas parece ressentida. Se muitas mulheres de prestígio (bonitas e inteligentes e chiques etc.), derem a entender indireta e continuamente que seu marido é indesejável, ele vai começar a perder prestígio. Você pode, é claro, dar uma de superior e reafirmar seu desejo por ele. Mas também vai lembrar que tudo era mais gostoso quando só você tinha aquilo que muitas desejavam e quando não tinha de retirar todo esse desejo por alguém só de si mesma.

É por tudo isso que os problemas de auto-estima vão atingir mais evidentemente aquelas mulheres bem-sucedidas, bonitas e magras, isto é, aquelas que são modelos para as outras. Ocupar o papel de modelo e afirmar a sua (pseudo-)autonomia não vai resolver o problema de ninguém, porque isso é a morte do desejo. O desejo, por sua vez, é o que as pessoas querem. Mais do que possuir, elas querem desejar: é por isso que se valoriza tanto a “jornada” e a idéia de que “não se pode parar”. O desejo competitivo, porém, não traz felicidade. Se você realiza o desejo, ele morre. Se não realiza e insiste, fica frustrado. A única coisa a fazer, paradoxalmente, é renunciar ao desejo competitivo e buscar modelos claros e explícitos que possam ser compartilhados.

Um problema bastante contemporâneo, sobretudo entre os overachievers, é exatamente este tédio. Tendo obtido tantas coisas, quem poderá conferir prestígio? Como você faz para deixar de ter uma opinião tão sublime de si próprio que cria uma camada impermeável aos elogios alheios? Paradoxalmente, mais uma vez, admitindo as próprias limitações. Por mais overachiever que alguém seja, sempre há áreas inexploradas, idéias não-pensadas.

Ninguém é tão particular assim também. Se Sófocles pode falar conosco quase 2500 anos depois, é porque ele abdicou de suas idiossincrasias para poder encontrar algo de universal. Por outro lado, Blair Waldorf só será considerada chique por uma certa camada de nossa geração, e por meia dúzia de arqueólogos da moda no futuro. Mesmo o mais particular dos estilos pessoais de se vestir depende de um princípio universal, que é o princípio da adequação. Ninguém se veste bem sem que sua roupa esteja adequada a si mesmo e à circunstância. Analogamente, mesmo que você tenha uma alma individual, sua personalidade não é tão única assim a ponto de beirar o ininteligível. A parte dela que beira o ininteligível é irrelevante e querer definir-se por ela é certeza de infelicidade. Vejam lá se eu agora vou passar a dizer às pessoas que, em vez de eu ser o sujeito que estuda grego, sou o sujeito que gosta de Tic-Tacs de cereja e menta.

Há alguns parágrafos o que eu estou dizendo pode soar como um bando de clichês de auto-ajuda. Mas esses sentimentos estão na base da tragédia e da hybris. Eu poderia dizer um tanto poeticamente que a hybris é o desejo de refundar o mundo com base no próprio ego. Danem-se as leis, as convenções, os papéis sociais; quero fazer tudo do meu jeito. Assim você se hibridiza, se confunde e, naturalmente, passa a desconhecer a própria identidade. Porque, invariavelmente, a hybris nada mais é do que uma reação mimética negativa. Não posso negar que minha camisa anti-Che tem o propósito de bagunçar o consenso (imbecil) em torno de um suposto heroísmo de Ernesto Guevara. É um jeito que tenho de me diferenciar e de criar a impressão de que estou acima do meio, que “eles” são uns burrões, um bando de maria vai com as outras que segue sem pensar o consenso esquerdista, enquanto eu sou o grande Sócrates da parada, questionando tudo indomitamente. A camiseta é bastante inofensiva, mas a mesma estratégia pode estar presente de modo muito mais sutil. Posso dizer que gosto de Husserl e não de Foucault. Ou de Geoffrey Hill e não de Clarice Lispector. Tudo depende de o meu gosto ser mais ou menos afetado pela opinião que eu quero que as pessoas tenham de mim por eu gostar dessas coisas. Naturalmente, quero que os vulg
ares me odeiem e os melhores me aplaudam. A extensão do quanto eu quero isso (ou do quanto eu quero uma pessoa) é a extensão de quanto meu desejo é competitivo e mimético.

Vou encerrar com uma história, porque é sábado e o trabalho é grande — daí eu ter andado meio sumido aqui. A história, real, me foi contada por seu protagonista há uns 10, 11 anos, e me marcou muito. Era uma vez, nos anos 1970, um homem que trabalhava com mídia que estava cansado do mundo capitalista e mau. Decidiu mudar-se para uma minúscula cidadezinha no interior da Amazônia. Chegando lá, diz ele, “na hora em que eu vi que não tinha ninguém para me aplaudir por eu ter decidido levar aquela vida, só não voltei para Manaus imediatamente porque o barco só passava no dia seguinte”. De Manaus, ele veio para o Rio e arrumou um emprego na Rede Globo. Hoje, ele é um empresário bem-sucedido.

Por isso, se você tem problemas de auto-estima, talvez você esteja na sua cidadezinha minúscula do Amazonas, só que dentro da sua cabeça. As pessoas à sua volta te aplaudem, mas você não acha que elas têm prestígio, não quer admitir que talvez seja preciso encaixar-se no mundo existente em vez de viver segundo uma regra imaginária e especial que transformaria a sua vida numa sucessão ininterrupta de momentos perfeitos. Admita sua competitividade e suas limitações, e pegue o barquinho de volta para Manaus.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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