Deus em minúscula, problema de auto-afirmação

Escrever “Deus” com minúscula, “deus”, é mais ou menos como escrever “estados unidos” por ser anti-americano. Imaginem se eu, que julgo que o governo não deveria manter empresas, vou passar a escrever “petrobras”. Posso deixar perfeitamente clara a minha posição sem criar um ruído comunicativo que só serve para dar a impressão de que estou falando com vozinha esganiçada e dedinho apontado, correndo e dando chutinhos na canela dos adultos. “Olha só, não acredito, não respeito, por isso ponho em minúscula! Olha! Olha! OLHA!”

Ainda que eu me sinta um professor primário por dizer isso, o “D” maiúsculo tem uma função convencional, distinguindo o Deus cristão (e judeu) dos deuses pagãos. É verdade que o Deus cristão ainda é distinto por não ser acompanhado de artigo nem de nome; basta que se diga que Deus fez isso, ou que Deus estabeleceu tal coisa, para que se saiba não se está falando do deus Indra ou do deus Apolo; mas, veja só, eu não creio nem em Indra, nem em Apolo, e consigo perceber o ridículo de escrever indra e apolo. Mesmo que se pense que o Deus cristão é apenas mais um deus como o dos pagãos — o que demonstra menos sutileza que dizer que Ayn Rand e Karl Marx não passam de autores ateus — , ué, o nome convencional do Deus cristão é “Deus”. Ou, se preferirem, “o nome convencional do deus cristão é Deus”.

Pelo menos, por uma questão de coerência, essa gente que escreve Deus com minúscula podia começar a escrever moisés, abraão, isaías. Se não crêem no maior, podiam também não crer nos menores a quem os crentes atribuem existência histórica.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com