Um erro de Nelson

Acabo de passar alguns minutos procurando entre meus livros a coletânea — terá sido O óbvio ululante? A cabra vadia? — com a crônica em que Nelson Rodrigues explica a razão de haver tantos personagens depravados em suas peças. Não achei; mas lembro que está no começo, e que nela Nelson diz que exibe aquilo tudo para que, de certo modo, a sociedade seja purgada. Se há loucos e depravados em cena, não os haveria na sociedade. O teatro funcionaria como catarse, como purgação dos instintos perversos, e a platéia de uma peça de Nelson Rodrigues voltaria para casa mais seguidora da moral e dos bons costumes.

Lembro de ler isso, há anos, e quase cair para trás. Porque “Nelson Rodrigues”, por mais reaça que fosse, era sinônimo de “depravação”, ou pelo menos de “mulher pelada”. Quando eu era criança, mal podia ouvir falar de “filme do Nelson Rodrigues”, e já imaginava coisas inauditas e inomináveis. Que eu nem mesmo sabia o que eram. Depois, mais velho, quando vi os primeiros filmes do Nelson Rodrigues, também constatei definitivamente que eles não produziam catarse nenhuma dos tais instintos perversos. Pelo contrário. Qualquer que fosse a história, o fator “mulher pelada” se tornava mais relevante. Vamos dizer apenas que Platão não aprovaria o efeito daqueles filmes e peças na alma dos espectadores.

Daí a pergunta: será que ele realmente desconhecia o efeito de suas obras? Onde foi que ele errou?

Errou no seguinte. Aristóteles já falava da catarse, a purgação de certas emoções operada pela tragédia. Aristóteles também diz que Édipo Rei, de Sófocles, é um modelo de tragédia. O personagem Édipo é digno do Nelson mais perverso: matou o pai, casou com a mãe, teve com ela quatro filhos, e, quando a peça começa, ele está dizendo que vai acabar com a peste que assola a cidade. Durante a peça, sua mãe-esposa se mata, e ele mesmo se cega. Qual a diferença entre Sófocles e Nelson Rodrigues? A diferença é que o primeiro não mostra nenhum dos atos perversos no palco. As coisas horrendas do passado são meramente aludidas, e as violências acontecem fora do palco. Tudo o que se mostrar no palco vai assumir ao menos parcialmente o papel de modelo; afinal, o palco é o centro da atenção.

Com isso não quero desmerecer a obra de Nelson Rodrigues. Ele é o maior dramaturgo da língua portuguesa em todos os tempos. Domina a perfeita dicção carioca. Em cinco falas já estamos transportados para onde quer que ele queira. Talvez minhas peças favoritas dele sejam Viúva, porém honesta, A falecida e A serpente, cada uma com um registro diferente, com perfeita concisão, com tudo. Mas é verdade que o legado de Nelson, ou ao menos do Nelson “trágico”, não é de purgação das perversões – é de excitação desses sentimentos, e tudo porque ele quis exibir as perversões de seus personagens.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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