Feminismo errando o alvo

As mulheres feministas reclamam de transformação da mulher em objeto. Vá lá. Mas essa reclamação é muito, digamos, incompleta.

É incompleta pelo seguinte. Quando você pensa em mulher-objeto, pensa numa mulher numa revista masculina, em que ela é apresentada de forma doce, inofensiva e oferecida. Mas essas fotos, como as mulheres sabem muito bem, só impressionam os homens. De modo geral, as mulheres não só desprezam as modelos das revistas masculinas, como na melhor das hipóteses acham que devem ter a magnanimidade de tolerar que seu namorado ou marido olhe esse tipo de revista. Para a mulher, isso é um sinal de tosquice.

No entanto, as mulheres vêem muito mais revistas e muito mais fotografias do que os homens. Revistas e fotografias com outras mulheres superproduzidas, supermaquiadas. Essas outras mulheres, essas modelos, ocupam justamente o papel de modelos: ideais a que as leitoras aspiram. São esses ideais — de magreza, de elegância, de glamour — que oprimem as mulheres. A moça na capa da Playboy já está desprezada de antemão. A moça na capa da Vogue, pelo contrário, vai direto para o pedestal.

Mais interessante é que os ideais masculinos de força, dignidade e heroísmo podem ser realizados em qualquer idade, a qualquer momento. Pode-se ser o Clint Eastwood sempre. Não se pode ser sempre a modelo da revista. Nem a modelo da revista pode ser a modelo da revista sempre.

E muito mais interessante é o seguinte: esse ideal feminino contemporâneo foi inventado por mulheres e por gays. Não conheço um único homem que declare uma preferência pela versão glamourosa e produzida da sua namorada. Todos preferem as mulheres em versões simples, muito mais girl next door do que bombshell. Sem contar que nós, homens, nunca fomos fãs da anorexia atual.

As feministas dizem que são oprimidas pela “sociedade patriarcal”. Mas nunca os homens heterossexuais esperaram que elas fossem modelos de glamour, eternamente jovens, permanentemente na moda, cheias de pose, tivessem opiniões politicamente corretas e pesassem no máximo 50 quilos.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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