A diferença entre crentes e ateus

What a piece of work is man! How noble in reason! How infinite in faculty! In form and moving how express and admirable! In action how like an angel! In apprehension how like a god! The beauty of the world! The paragon of animals! And yet, to me, what is this quintessence of dust?

Hamlet, II, ii

Em termos de experiência, pergunto-me qual será a diferença fundamental e real entre crentes e descrentes, entre religiosos e ateus. As semelhanças são muito fáceis de apontar. Ambos dirão que apenas se submetem à verdade; ambos dirão que seguem suas consciências; ambos dirão, mais ainda, que o que os diferencia do outro lado é o estar certo, o ter razão; também dirão que são humildes, uns porque aceitam Deus, outros porque aceitam os limites do conhecimento humano; e não se deve esquecer que uns considerarão os outros a praga da humanidade. Nisto tudo crentes e descrentes podem ser iguais. Mas qual será o fundamento subjetivo de sua diferença? Haverá uma atitude fundamental que distinga um grupo do outro?

Claro que falo como crente. E não posso empreender uma investigação destas sem boa vontade para com o lado descrente. Essa boa vontade me obriga ao seguinte: devo supor que um ateu é tão sinceramente ateu quanto eu sou católico; que, assim como não julgo a mim mesmo um imbecil, também não vou julgá-lo imbecil; que não serei condescendente, e que tentarei colocar para mim mesmo a pergunta: “Se eu fosse parar de crer, ou se fosse pensar que não há Deus, como chegaria a isso, sem qualquer desonestidade? O que me levaria até esse estado?” Claro que qualquer um pode apontar que provavelmente a minha consciência já não é tão pura a ponto de servir de modelo; mas eu só posso dizer que ao “amar ao próximo como a mim mesmo” vou tentar considerá-lo como eu me consideraria.

O empreendimento me parece quase impossível, para dizer a verdade. Ou melhor: parece que só é possível chegar a uma hipótese e esperar que os ateus não se sintam mal representados, como se a minha hipótese contivesse sua condenação implícita. Aliás, também admito que eu gostaria de chegar a uma enunciação dessa diferença que fosse retoricamente aceitável tanto para crentes quanto para descrentes.

O melhor que consegui até agora foi o seguinte: diante da complexidade do mundo, o crente pressente a existência de uma inteligência transcendental, ao passo que, para o ateu, esse pressentimento é um passo indevido, uma projeção de quem observa o mundo. O crente, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga tratar-se da obra de outra inteligência; o ateu, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga que o domínio dessa vastidão virá com o tempo. Parece que as duas atitudes refletem duas posições a respeito de uma possível ciência universal. De um lado, o crente pergunta ao ateu: “E quando ficar evidente que a ciência universal é impossível, você passará a crer?” E o ateu pergunta: “E se a ciência universal acontecer, você deixará de crer?” É um tanto irresistível observar que, dita assim, a posição atéia parece se basear não num prometeanismo voluntarista, mas num prometeanismo inevitável: a transcendência não será mais necessária porque conquistá-la é só uma questão de tempo.

E por aqui encerro por enquanto, porque o projeto pede que se caminhe lentamente.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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